Durante a juventude, vivemos como se o tempo fosse um aliado eterno. Na adolescência e na vida adulta, a ideia de morte parece distante, quase abstrata, como algo que pertence sempre ao outro, nunca a nós. O corpo responde, os dias passam rápidos, os projetos se multiplicam, e a sensação íntima é de permanência. Há pressa, há sonhos, há futuro demais para pensar em finitude.
Mas algo muda quando atravessamos a fronteira dos cinquenta anos. Ao chegar aos cinquenta e tantos, aproximando-nos dos sessenta, a vida começa a falar mais alto — e com outro tom. O espelho já não mente, o corpo dá sinais, e o tempo deixa de ser apenas calendário para se tornar consciência. Não é medo imediato, é lucidez. Uma lucidez silenciosa que se instala aos poucos.
Essa percepção se aprofunda quando, quase sem aviso, pessoas próximas começam a partir. Amigos, colegas, conhecidos da mesma geração. Às vezes de forma repentina, “do nada”, como se a vida tivesse sido interrompida no meio da frase. Cada despedida deixa uma marca, e essas marcas, somadas, constroem uma certeza difícil de ignorar: a de que somos finitos. A morte deixa de ser conceito filosófico e passa a ser presença cotidiana, ainda que discreta.
Essa consciência não precisa ser sombria. Ela pode, ao contrário, nos ensinar a viver com mais verdade. Quando entendemos que a vida pode ser interrompida a qualquer momento, aprendemos a valorizar o instante, a suavizar as pressas inúteis, a cuidar melhor das pessoas e de nós mesmos. A imortalidade que imaginávamos possuir se desfaz, mas, em troca, ganhamos profundidade.
No fim, talvez seja isso que reste: aceitar a brevidade da existência como parte da sua beleza. Como escreveu Fernando Pessoa, com a lucidez de quem compreendeu o tempo e a fragilidade humana: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.” E é justamente quando reconhecemos nossa mortalidade que a alma, paradoxalmente, cresce.

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