quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Chromebook na escola: entre a inovação tecnológica e a responsabilidade pedagógica

 A utilização dos Chromebooks na Educação do Estado de Goiás nos coloca diante de uma importante dicotomia: devemos deixar os equipamentos permanentemente com os estudantes ou mantê-los sob a responsabilidade da escola, disponibilizando-os somente quando forem necessários às atividades pedagógicas?

A proposta de inserir a tecnologia no cotidiano escolar é, sem dúvida, positiva. Vivemos em uma sociedade cada vez mais digital, e a escola precisa preparar os estudantes para utilizar as ferramentas tecnológicas de maneira crítica, responsável e produtiva. O Chromebook pode ampliar as possibilidades de aprendizagem, facilitar pesquisas, apoiar a realização de atividades, promover a inclusão digital e tornar as aulas mais dinâmicas e interativas.

Entretanto, precisamos fazer uma pergunta fundamental: estamos utilizando a tecnologia a serviço da educação ou estamos permitindo que a educação se adapte aos interesses individuais dos estudantes?

Na minha visão, a questão não está em ser contra ou a favor da tecnologia. Sou favorável à utilização dos recursos digitais como instrumentos de aprendizagem, mas considero que a permanência dos Chromebooks com os estudantes durante todo o período letivo precisa ser repensada.

Na realidade cotidiana das escolas, observamos que muitos alunos utilizam os equipamentos para finalidades que pouco ou nada têm a ver com o processo educacional. Jogos, vídeos, redes sociais, entretenimento e outras atividades acabam disputando a atenção dos estudantes com os conteúdos trabalhados em sala de aula. Aquilo que deveria funcionar como uma ferramenta de aprendizagem pode, em determinadas circunstâncias, transformar-se em um elemento de distração e dispersão.

Outro problema recorrente é o fato de muitos estudantes levarem os equipamentos para casa e não os trazerem de volta no dia seguinte. Essa situação compromete o planejamento dos professores, dificulta a realização das atividades e prejudica, inclusive, os alunos que comparecem preparados para participar das propostas pedagógicas. Afinal, de que adianta planejar uma aula que depende de recursos digitais se parte da turma não dispõe do equipamento no momento necessário?

É nesse ponto que defendo uma mudança na forma de organização e utilização desses recursos. Minha posição é favorável a que os Chromebooks permaneçam sob a guarda e o controle da escola, sendo entregues aos estudantes nos momentos em que houver necessidade pedagógica.

Essa proposta não significa proibir a tecnologia, retroceder ou desconsiderar a importância da inclusão digital. Pelo contrário: significa estabelecer critérios para que o investimento público cumpra efetivamente sua finalidade educacional.

A escola precisa garantir que os equipamentos sejam utilizados com objetivos definidos, orientação docente e acompanhamento adequado. Se uma aula exige pesquisa na internet, produção de textos, resolução de exercícios ou utilização de plataformas educacionais, os Chromebooks devem estar disponíveis para todos os estudantes envolvidos. Encerrada a atividade, os equipamentos podem ser recolhidos e guardados em local apropriado.

Esse modelo também pode contribuir para a conservação do patrimônio público, reduzir os riscos de danos e extravios e facilitar o controle dos equipamentos. Além disso, permite que o professor organize melhor suas aulas, sem depender exclusivamente da iniciativa individual de cada estudante para trazer o dispositivo de casa.

É importante reconhecer, contudo, que o simples recolhimento dos equipamentos não resolverá todos os problemas de aprendizagem ou de indisciplina. O uso inadequado da tecnologia também precisa ser enfrentado por meio da orientação, da construção de regras claras, da educação digital e do desenvolvimento da autonomia dos estudantes. Da mesma forma, existem atividades que podem justificar o uso do Chromebook fora da escola, desde que haja planejamento e condições adequadas.

Por isso, a discussão não deve ser conduzida como uma disputa entre modernidade e conservadorismo, nem como uma tentativa de retirar direitos dos alunos. O que precisamos discutir é qual modelo de utilização oferece melhores condições para alcançar os objetivos educacionais, considerando a realidade concreta de cada unidade escolar.

A tecnologia, por si só, não garante aprendizagem. Um equipamento moderno nas mãos de um estudante que não o utiliza com finalidade educativa não representa, necessariamente, avanço pedagógico. O verdadeiro progresso acontece quando os recursos tecnológicos são integrados ao planejamento, à mediação do professor e ao desenvolvimento das competências e habilidades dos alunos.

Também precisamos considerar que a escola é um espaço coletivo, com regras, responsabilidades e objetivos comuns. A autonomia dos estudantes deve ser desenvolvida progressivamente, mas autonomia não significa ausência de limites. Aprender a utilizar a tecnologia de maneira responsável também envolve compreender que existem momentos apropriados para cada finalidade e que os recursos disponibilizados pelo poder público devem ser utilizados com responsabilidade.

Defendo, portanto, que o Chromebook seja tratado prioritariamente como uma ferramenta pedagógica sob gestão da escola, e não como um equipamento de uso pessoal irrestrito durante o ano letivo. Sua utilização deve ocorrer de acordo com o planejamento dos professores, com critérios definidos coletivamente pela equipe gestora e pedagógica e com regras transparentes para todos os estudantes.

Naturalmente, qualquer mudança nesse sentido precisa respeitar as orientações da Secretaria de Estado da Educação de Goiás, as condições de acesso dos alunos e as normas aplicáveis ao programa. A escola deve verificar se existe autorização para manter os equipamentos sob sua guarda e estabelecer procedimentos adequados de empréstimo, conservação e devolução.

No fim das contas, a pergunta mais importante não é simplesmente se devemos deixar ou recolher os Chromebooks. A pergunta é: qual decisão contribui mais para que esses equipamentos cumpram sua verdadeira missão: melhorar a aprendizagem dos nossos estudantes?

Na minha compreensão, diante das dificuldades observadas com o uso inadequado e com a falta de devolução diária dos equipamentos, a guarda dos Chromebooks pela escola, com disponibilização planejada para as atividades pedagógicas, representa uma alternativa mais coerente com a realidade que vivenciamos.

A tecnologia deve estar presente na escola, mas precisa estar a serviço da educação. Não podemos confundir disponibilizar equipamentos com garantir aprendizagem, assim como não podemos confundir liberdade de utilização com responsabilidade no uso.

Mais importante do que entregar tecnologia aos estudantes é assegurar que ela produza conhecimento, desenvolva habilidades e contribua efetivamente para a formação humana e intelectual de cada um deles.

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