Pensar é caro. O cérebro humano opera, na maior parte
do tempo, em um modo automático e associativo, que Kahneman (2012) descreve
como Sistema 1: rápido, intuitivo, econômico e quase sempre suficiente para a
vida cotidiana. O raciocínio deliberado, lento e sequencial — o Sistema 2 — só
entra em cena quando convocado, e raramente é convocado. Daí a impressão,
tantas vezes repetida, de que a maioria das pessoas não pensa criticamente. A
formulação é injusta, porém: não se trata de incapacidade, mas de um custo
metabólico e cultural que poucos ambientes recompensam.
O substrato dessa deliberação é bem localizado.
Miller e Cohen (2001) argumentam que o córtex pré-frontal não guarda conteúdos,
mas impõe viés de cima para baixo sobre as demais regiões, sustentando regras e
objetivos contra a pressão do estímulo imediato. Diamond (2013) organiza essa
função em três eixos — controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade
cognitiva — que são, em termos psicológicos, exatamente o que se exige de
alguém que suspende a primeira resposta, mantém uma premissa em mente e aceita
revisá-la. Damásio (1996), ao reexaminar o caso de Phineas Gage, mostra ainda
que lesões pré-frontais não destroem a inteligência medida, mas corroem o
julgamento: pensar bem não é um acessório da razão, é a razão inteira.
Convém observar que essa maturação é lenta. A
literatura em neurodesenvolvimento indica que a mielinização pré-frontal se
estende até o início da vida adulta, o que ajuda a explicar por que a crítica é
aprendizado tardio e frágil — e por que se perde com facilidade sob fadiga,
medo ou pressão de grupo.
A glândula pineal presta-se aqui a um exercício
involuntariamente perfeito. Descartes (1649) a elegeu como sede da alma e ponto
de contato entre res cogitans e res extensa, escolha ditada menos pela
evidência que pela conveniência anatômica de ser um órgão ímpar em um cérebro
simétrico. A neuroendocrinologia posterior, sintetizada por Reiter (1991),
estabeleceu função distinta: secreção de melatonina e regulação de ritmos
circadianos e sazonais. O erro cartesiano, contudo, sobreviveu ao próprio
Descartes e foi reciclado como "terceiro olho", promessa de percepção
ampliada. É um caso exemplar dos ídolos descritos por Bacon (1620): a mente,
diante de um vazio explicativo, prefere preenchê-lo com analogia poética a
deixá-lo aberto.
Ver além do texto, portanto, não significa buscar
sentidos ocultos — significa o oposto. Popper (1972) propõe que o valor de uma
afirmação reside no que ela proíbe, no que a tornaria falsa; Sagan (1996)
recomenda o hábito prosaico de perguntar quem afirma, com base em quê, e o que
a hipótese concorrente explicaria melhor. Arendt (1978) já havia nomeado o
problema em sua forma mais grave: não a estupidez, mas a irreflexão — a
ausência do diálogo interno pelo qual alguém se torna testemunha de si mesmo.
Resta a conclusão desconfortável e necessária. A
crítica é prática, não atributo; não se possui, exerce-se. Paul e Elder (2006)
insistem que ela se aprende por padrões explícitos — clareza, precisão,
relevância, profundidade —, aplicados em primeiro lugar ao próprio raciocínio.
Quem diagnostica nos outros a incapacidade de pensar costuma dispensar-se do
mesmo exame. É aí, e não na pineal, que o olho deixa de ver.

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