sábado, 23 de maio de 2026

Ainda Somos (Em Parte) Terceiro Mundo?

Por: Prof. Márcio Pires da Silva

Ao analisarmos a evolução demográfica e social do Brasil nas últimas décadas, é inegável que o país acumulou conquistas estruturais significativas. Se voltarmos os olhos para os anos 1970 e 1980, o Brasil sobrevivia sob o peso de indicadores típicos de um "Terceiro Mundo" subdesenvolvido: a expectativa de vida ao nascer na década de 1970 orbitava a precária média de 57 anos, e a taxa de mortalidade infantil dizimava dezenas de crianças a cada mil nascidos vivos, impulsionada por epidemias de desidratação, desnutrição e ausência quase absoluta de saneamento básico no interior. Com a universalização da saúde pública pelo SUS a partir de 1988, a expansão das redes de vacinação e a melhoria na infraestrutura urbana, as médias nacionais saltaram de forma robusta, aproximando o país dos índices de longevidade globais.

Contudo, a publicação da reportagem "Diferença na expectativa de vida supera 14 anos no Brasil; veja em seu estado" (Folha de S.Paulo, 2026) funciona como um doloroso choque de realidade. Os números agregados e as médias nacionais otimistas, que muitas vezes celebram o envelhecimento recorde da população e a aproximação dos padrões do "Primeiro Mundo", servem apenas para camuflar um abismo interno. O estudo conduzido pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o Cedeplar/UFMG revela que o Brasil não avançou de forma homogênea: coexistem no mesmo território nacional ilhas de desenvolvimento europeu e bolsões de miséria e violência que nos retêm, em parte, no atraso do século passado.

A disparidade máxima identificada pela pesquisa expõe essa fratura: enquanto uma mulher branca residente em Santa Catarina possui uma expectativa de vida média de 80,9 anos — patamar equivalente ao de nações desenvolvidas da Europa —, um homem negro nascido em Alagoas tem uma estimativa de vida de apenas 66,7 anos. Estamos diante de uma distância brutal de 14,2 anos que separa o topo e a base da nossa pirâmide social. Três pilares sustentam esse abismo demográfico: "as diferenças de gênero, que respondem por 56% do intervalo; as desigualdades raciais, que representam 23%; e as disparidades regionais, responsáveis por 21% da variação".

Quando nos deslocamos para os rincões de pobreza pelo interior, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, as deficiências estruturais que caracterizavam o Brasil dos anos 1970 e 1980 continuam operando de forma perversa na redução do tempo de vida dos cidadãos. Conforme explica o professor de demografia Cássio Turra, as assimetrias regionais na longevidade são alimentadas por "redes de saneamento deficitárias, maiores distâncias entre centros com atendimento médico emergencial e de ponta... mais emprego informal e menos recursos entre a população para que possa adquirir planos privados de saúde". Essa falta de acesso a serviços básicos de saúde e infraestrutura pune severamente o público feminino negro e periférico, cuja perda de expectativa de vida está atrelada à maior incidência de doenças cardiovasculares, respiratórias e neoplasias não tratadas a tempo na faixa dos 35 aos 59 anos.

Por outro lado, o fator que mais abrevia a existência da população masculina nas periferias e interiores não é biológico, mas social: a violência civil. O cruzamento de dados feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) aponta uma estatística alarmante de violência endêmica: entre as vítimas de homicídios no Brasil, 91% são homens, 79% são negros e quase metade tem idade até 29 anos. Como destaca a coordenadora técnica Juliana Brandão, "o fato de ser negro aumenta em três vezes a chance de ser assassinado em relação à população branca". Essa sobremortalidade por causas externas retira de forma violenta a juventude do interior e das periferias, gerando uma distorção demográfica onde "quase metade da diferença de longevidade entre brancos e negros deve-se a causas externas, especialmente homicídios". Se essa violência generalizada fosse neutralizada, a expectativa de vida dos homens negros ganharia imediatamente três anos de vida.

Em suma, responder à questão se "ainda somos Terceiro Mundo" exige abandonar as ilusões estatísticas das médias nacionais, que servem apenas para ocultar a desigualdade. O Brasil melhorou em relação ao cenário desolador dos anos 1970 e 1980, mas a persistência de um hiato de 14 anos na sobrevivência de seus cidadãos prova que a cidadania plena e o direito de envelhecer com dignidade ainda são condicionados pela cor da pele, pelo gênero e pelo CEP de nascimento. Romper essa barreira colonial exige que o Estado direcione políticas públicas de proteção social, infraestrutura e saúde com precisão cirúrgica para as populações mais vulneráveis, sob a pena de continuarmos sendo um país rico que abriga, em suas entranhas, realidades de profunda exclusão.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Nossas palavras, pensamentos e atitudes possuem força

No jornal O Globo, em sua edição digital desta sexta-feira, 22 de maio de 2026, foi publicada uma entrevista com o psicólogo canadense Michael Losier sobre a chamada “lei da atração” e a influência dos pensamentos em nossa vida. A matéria, escrita pela jornalista Constança Tatsch, traz reflexões importantes que podem ser relacionadas diretamente à nossa realidade aqui no interior de Goiás, especialmente ao trabalho desenvolvido dentro das escolas.

No interior goiano, aprendemos desde cedo que a vida é feita de luta, simplicidade e esperança. Quem trabalha na escola conhece bem essa realidade: professores que acordam cedo, enfrentam dificuldades, lidam com alunos de diferentes histórias e, mesmo assim, continuam acreditando que a educação pode transformar vidas. É justamente nesse contexto que a entrevista publicada hoje em O Globo nos faz refletir sobre a força dos nossos pensamentos e das palavras que escolhemos todos os dias.

Segundo Michael Losier, “a lei da atração não responde às palavras, responde ao que você dá atenção”. Essa frase nos leva a pensar em quantas vezes, dentro da escola, focamos apenas nos problemas: na indisciplina, na falta de recursos, no desânimo ou nas dificuldades da aprendizagem. Quando fazemos isso, acabamos alimentando ainda mais aquilo que nos preocupa. O psicólogo propõe uma mudança de olhar: em vez de repetir “meus alunos não querem aprender”, devemos perguntar “como posso despertar neles o desejo de aprender?”. A mudança parece simples, mas transforma nossa postura e nossa energia dentro da sala de aula.

Aqui no interior de Goiás, onde muitas famílias vivem do trabalho duro na roça, no comércio ou em serviços simples, os estudantes precisam ouvir palavras que os incentivem a sonhar. Muitas vezes, eles crescem escutando que “isso não é para gente como nós”, ou que “é impossível chegar longe”. Na entrevista publicada pelo jornal O Globo, Losier afirma que “é importante se cercar de pessoas que também são grandes sonhadoras”. A escola, então, precisa ser esse lugar onde os sonhos são permitidos. O professor não ensina apenas conteúdos; ele também planta esperança.

Outro ensinamento importante apresentado na entrevista é quando o psicólogo diz: “Você recebe aquilo que vibra”. Isso não significa ignorar as dificuldades reais da vida, mas entender que a maneira como encaramos os desafios influencia diretamente nossas atitudes. Um aluno que acredita que é incapaz tende a desistir mais rápido. Já aquele que aprende a valorizar pequenas conquistas ganha força para continuar tentando. O mesmo acontece conosco, educadores. Quando valorizamos os avanços diários — um aluno que melhorou a leitura, outro que voltou a frequentar as aulas, uma turma que participou mais — começamos a perceber que a transformação acontece aos poucos.

Michael Losier também fala sobre o medo de sonhar grande. Muitas vezes, por receio da frustração, preferimos pensar pequeno. Porém, ele lembra que “o primeiro passo é aceitar que é permitido querer algo e pedir por isso”. Essa mensagem é essencial para nossos jovens do interior de Goiás. Eles precisam compreender que podem chegar à universidade, conquistar uma profissão digna, abrir um negócio ou mudar a realidade da própria família. O lugar onde nasceram não limita o tamanho dos seus sonhos.

Na prática escolar, isso significa ensinar os alunos a desenvolverem confiança, responsabilidade e pensamento positivo. Não um positivismo vazio, mas uma postura de perseverança diante da vida. Afinal, a educação também é um exercício de acreditar no futuro.

Assim, a grande lição da entrevista publicada hoje na edição digital do jornal O Globo é que nossas palavras, pensamentos e atitudes possuem força. Quando professores e alunos aprendem a focar mais nas possibilidades do que nos limites, a escola deixa de ser apenas um prédio e se torna um espaço de transformação humana. E talvez seja exatamente isso que o interior de Goiás mais precisa: pessoas que continuem acreditando, trabalhando e sonhando, mesmo diante das dificuldades.

sábado, 16 de maio de 2026

A Fragmentação do Espectro: Uma Análise Crítica sobre as Políticas de Classificação e Invisibilidade no TEA

 Por: Prof. Márcio Pires da Silva

Introdução

A publicação da reportagem "Debate sobre TEA expõe tensão entre autistas nível 1 e pais dos casos severos" traz à tona uma das discussões mais complexas e urgentes da neurociência e da sociologia contemporâneas. A unificação de diferentes condições sob o guarda-chuva do Transtorno do Espectro Autista (TEA), realizada em 2013 pelo manual psiquiátrico DSM-5, é colocada em xeque devido aos abismos práticos existentes entre as diferentes gradações do transtorno. Este artigo propõe uma análise crítica dos impactos positivos e negativos dessa categorização, evidenciando como a burocracia institucional e os critérios biomédicos afetam diretamente a distribuição de direitos e a formulação de políticas públicas no Brasil.

Aspectos Positivos: A Força da Identidade Coletiva

Inicialmente, é mandatório reconhecer o avanço civilizatório promovido pela criação do espectro amplo. Conforme aponta o neuropediatra Paulo Liberalesso na reportagem, "o conceito de espectro teve um papel fundamental na construção de uma identidade coletiva e na mobilização por direitos".

Sob a ótica legal brasileira, a unificação permitiu que indivíduos antes dispersos em diagnósticos isolados — como a antiga Síndrome de Asperger — passassem a usufruir das garantias jurídicas fundamentais da Lei Berenice Piana (2012) e da Lei Brasileira de Inclusão (2015). A consolidação de uma "voz própria" na liderança dos movimentos sociais, conduzida majoritariamente por autistas nível 1, retirou o debate da esfera puramente assistencialista e gerou um ganho inegável em termos de conscientização nacional.

Aspectos Negativos: A Invisibilidade do Autismo Profundo e o "Mascaramento"

Contudo, a universalidade do termo "espectro" acabou por camuflar disparidades socioeconômicas e clínicas alarmantes. O principal ponto cego dessa política reside na negligência com o chamado autismo profundo, que atinge 26% do contingente de autistas, mas que capta uma parcela irrisória de apenas 6% das pesquisas científicas globais. Como denuncia o pesquisador Lucelmo Lacerda, o cotidiano de indivíduos dependentes de cuidados 24 horas por dia e com severo comprometimento intelectual é frequentemente apagado por uma cobertura midiática focada exclusivamente em "histórias de superação, de autista que foi para a faculdade, que se casou".

Por outro lado, a unificação também penaliza os indivíduos classificados no nível 1. A falsa simetria criada pelo rótulo de autismo "leve" faz com que a sociedade minimize o sofrimento psicológico dessas pessoas, que enfrentam altos índices de desemprego e esgotamento (burnout) decorrentes do esforço exaustivo para "forçar contato visual, monitorar o tom de voz e engolir o pânico sensorial para não ser chamado de ‘esquisito’". Adicionalmente, observa-se uma exclusão ilegal em triagens de concursos públicos e cotas, sustentada pelo julgamento burocrático e preconceituoso de que tais sujeitos "não seriam deficientes o suficiente".

O que deve ser feito? Caminhos para a Efetiva Inclusão

Diante desse cenário de saturação do modelo atual, mudanças profundas precisam ser operadas na gestão pública e nos critérios de diagnóstico:

  1. Especificação Orçamentária e Descentralização de Recursos: O Estado brasileiro não pode continuar gerando políticas macroeconômicas ou pedagógicas baseadas no número absoluto de laudos de TEA. É urgente que o direcionamento de verbas para a contratação de profissionais de apoio escolar e terapias especializadas considere a especificidade de cada nível, sob pena de deixar os casos de nível 2 e 3 desamparados devido ao preenchimento de vagas por demandas de menor complexidade.
  2. Ampliação do Debate para Além do Nível 1: Conforme alertado pela deputada Andréa Werner, as esferas governamentais precisam incluir ativamente as famílias dos autistas severos nas mesas de negociação. Uma inclusão real "não pode excluir as famílias do debate", evitando que indivíduos altamente funcionais definam, sozinhos, as diretrizes de quem não possui linguagem funcional.
  3. Acolhimento Pragmático das Transições Científicas (CID-11): A entrada em vigor da nova Classificação Internacional de Doenças (CID-11) no Brasil, prevista para janeiro de 2027, deve ser utilizada como um marco de transição pedagógica e médica. A introdução de subníveis mais claros baseados na presença ou ausência de linguagem funcional e deficiência intelectual servirá para refinar o diagnóstico e combater injustiças burocráticas.

Conclusão

Em suma, o debate expõe o que a filosofia foucaultiana define como o poder dos discursos médicos sobre a regulação dos corpos e dos direitos dos cidadãos. Fragmentar o espectro de forma abrupta pode, de fato, enfraquecer a força política do movimento coletivo; contudo, manter a homogeneidade atual às custas do silenciamento do autismo profundo e da invalidação do sofrimento do nível 1 é perpetuar uma estrutura de exclusão precária. O caminho à frente exige uma neurociência contemporânea aliada a políticas públicas sensíveis às diferenças reais, garantindo equidade e amparo para todas as mentes.

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

A VIDA ACONTECE HOJE

 


O sol nasce lentamente no horizonte entre Marzagão e Água Limpa, tingindo o céu com tons dourados e alaranjados que anunciam a chegada de um novo dia de outono. São 6h30, e a paisagem desperta em silêncio, como se a própria natureza respirasse fundo antes de seguir seu curso. A luz suave se espalha pelos campos verdes, tocando as árvores, refletindo na água ao longe e aquecendo a terra ainda fresca da madrugada.

Há algo de profundamente transformador nesse instante. O sol, deslumbrante e amarelado, não apenas ilumina, mas também convida. Convida à pausa, à contemplação, à gratidão. Ele marca a mudança do clima, sim, mas também pode marcar uma mudança dentro de nós. A cada amanhecer, a vida nos oferece a chance de recomeçar — não como uma promessa distante, mas como uma realidade concreta que se manifesta no agora.

Muitas vezes nos perdemos pensando no amanhã, como se ele fosse o verdadeiro palco da vida. Mas a verdade é mais simples e, ao mesmo tempo, mais exigente: a vida acontece hoje. É neste instante que sentimos, escolhemos, erramos, aprendemos e crescemos. O objetivo da vida é viver — plenamente, intensamente — não o amanhã que ainda não chegou, mas o hoje que já está diante de nós.

Aprendemos, estudamos, planejamos… tudo isso tem valor, mas apenas quando nos ajuda a viver melhor o presente. O agora é o único tempo que realmente possuímos. E assim como o sol que nasce todos os dias sem falhar, a vida também se renova constantemente, pedindo apenas que estejamos presentes para percebê-la.

Diante dessa paisagem serena, fica um lembrete silencioso: viver é um ato de presença. É olhar ao redor, sentir a luz, reconhecer a beleza e agradecer. Porque, no fim, não é o amanhã que transforma — é o hoje bem vivido.