Falar em "o que a direita brasileira
propõe" — ou "o que a esquerda propõe" — exige, antes de tudo,
admitir que nenhum dos dois campos é um bloco único. Do lado da direita, há
pelo menos quatro candidaturas presidenciais concorrentes entre si (Flávio
Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos), com divergências reais
sobre até onde deve ir a redução do Estado. A esquerda, para 2026, concentra-se
de forma mais unificada na candidatura de Lula (PT), o que facilita a
comparação, mas não deve sugerir uniformidade interna do campo progressista
como um todo.
Na economia, o contraste é claro. Lula mantém o
arcabouço fiscal atual como âncora, prioriza a reforma tributária do consumo
(fusão de tributos em CBS e IBS), isenção de Imposto de Renda até R$ 5 mil e
tributação sobre fundos exclusivos e offshores dos super-ricos, além de apoiar
o fim da escala 6×1 em favor da jornada de 40 horas. Do lado liberal, Flávio
Bolsonaro propõe uma nova âncora fiscal baseada na trajetória da dívida, com
corte de ministérios e desvínculo de pisos de saúde e educação, enquanto Romeu
Zema vai mais longe, defendendo privatização de praticamente todas as estatais
e reforma previdenciária com ajuste automático de idade. O eixo do desacordo,
portanto, não é "ter ou não Estado", mas o tamanho e a permanência
das regras fiscais, e quem paga a conta do ajuste.
Em segurança pública, os dois campos concordam que o
crime organizado é prioridade, mas divergem no instrumento. Lula condiciona sua
agenda à aprovação da PEC da Segurança Pública, propondo a criação de um
Ministério da Segurança Pública para coordenar União, estados e municípios,
dobrar o efetivo da Polícia Federal e fortalecer presídios federais — uma
aposta em integração institucional e presença do Estado. Flávio Bolsonaro
concentra sua proposta em endurecimento penal: redução da maioridade penal para
crimes graves, fim da progressão de pena para hediondos e classificação de
facções como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas — uma aposta
em repressão e encarceramento. Um perfil da imprensa que comparou os dois
planos resume a diferença como integração federal de um lado contra maior poder
repressivo do Estado do outro.
Na educação, Lula defende a expansão da escola em
tempo integral em toda a rede pública, argumentando publicamente que o
investimento em educação é fiscalmente mais barato que o custo de manter uma
pessoa presa. Setores da direita mais à direita do espectro — nem sempre
alinhados às candidaturas liberais citadas acima — priorizam a ampliação das
escolas cívico-militares e a descriminalização da educação domiciliar, pautas
que tramitam no Congresso associadas ao que analistas chamam de "guerra
cultural" em torno do currículo escolar.
Quanto ao Judiciário, há convergência num ponto pouco
notado: os dois lados querem mudar o STF, mas por razões opostas. Lula defende
uma reforma do critério de escolha e do tempo de mandato dos ministros, com o
argumento de "moralizar" a Corte e coibir práticas como parentes
advogando perante o próprio tribunal. Flávio Bolsonaro, por sua vez, propõe fim
de decisões monocráticas e restrições ao CNJ — pauta que ganha força no
contexto do julgamento do pai do candidato pelo STF, lido pela base bolsonarista
como perseguição política e por opositores como vitória institucional.
Em suma: nos quatro eixos, o desacordo raramente é
sobre a existência de um problema (segurança, custo do Estado, funcionamento do
STF são preocupações dos dois lados) — é sobre o diagnóstico da causa e o
instrumento de resposta. Isso é exatamente o tipo de coisa verificável em
planos de governo, e não em suposições sobre o que cada campo "realmente
quer".

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