segunda-feira, 21 de setembro de 2026

MAPEANDO PAUTAS ESPECÍFICAS: DIREITA E ESQUERDA EM 2026

 

Falar em "o que a direita brasileira propõe" — ou "o que a esquerda propõe" — exige, antes de tudo, admitir que nenhum dos dois campos é um bloco único. Do lado da direita, há pelo menos quatro candidaturas presidenciais concorrentes entre si (Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos), com divergências reais sobre até onde deve ir a redução do Estado. A esquerda, para 2026, concentra-se de forma mais unificada na candidatura de Lula (PT), o que facilita a comparação, mas não deve sugerir uniformidade interna do campo progressista como um todo.

Na economia, o contraste é claro. Lula mantém o arcabouço fiscal atual como âncora, prioriza a reforma tributária do consumo (fusão de tributos em CBS e IBS), isenção de Imposto de Renda até R$ 5 mil e tributação sobre fundos exclusivos e offshores dos super-ricos, além de apoiar o fim da escala 6×1 em favor da jornada de 40 horas. Do lado liberal, Flávio Bolsonaro propõe uma nova âncora fiscal baseada na trajetória da dívida, com corte de ministérios e desvínculo de pisos de saúde e educação, enquanto Romeu Zema vai mais longe, defendendo privatização de praticamente todas as estatais e reforma previdenciária com ajuste automático de idade. O eixo do desacordo, portanto, não é "ter ou não Estado", mas o tamanho e a permanência das regras fiscais, e quem paga a conta do ajuste.

Em segurança pública, os dois campos concordam que o crime organizado é prioridade, mas divergem no instrumento. Lula condiciona sua agenda à aprovação da PEC da Segurança Pública, propondo a criação de um Ministério da Segurança Pública para coordenar União, estados e municípios, dobrar o efetivo da Polícia Federal e fortalecer presídios federais — uma aposta em integração institucional e presença do Estado. Flávio Bolsonaro concentra sua proposta em endurecimento penal: redução da maioridade penal para crimes graves, fim da progressão de pena para hediondos e classificação de facções como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas — uma aposta em repressão e encarceramento. Um perfil da imprensa que comparou os dois planos resume a diferença como integração federal de um lado contra maior poder repressivo do Estado do outro.

Na educação, Lula defende a expansão da escola em tempo integral em toda a rede pública, argumentando publicamente que o investimento em educação é fiscalmente mais barato que o custo de manter uma pessoa presa. Setores da direita mais à direita do espectro — nem sempre alinhados às candidaturas liberais citadas acima — priorizam a ampliação das escolas cívico-militares e a descriminalização da educação domiciliar, pautas que tramitam no Congresso associadas ao que analistas chamam de "guerra cultural" em torno do currículo escolar.

Quanto ao Judiciário, há convergência num ponto pouco notado: os dois lados querem mudar o STF, mas por razões opostas. Lula defende uma reforma do critério de escolha e do tempo de mandato dos ministros, com o argumento de "moralizar" a Corte e coibir práticas como parentes advogando perante o próprio tribunal. Flávio Bolsonaro, por sua vez, propõe fim de decisões monocráticas e restrições ao CNJ — pauta que ganha força no contexto do julgamento do pai do candidato pelo STF, lido pela base bolsonarista como perseguição política e por opositores como vitória institucional.

Em suma: nos quatro eixos, o desacordo raramente é sobre a existência de um problema (segurança, custo do Estado, funcionamento do STF são preocupações dos dois lados) — é sobre o diagnóstico da causa e o instrumento de resposta. Isso é exatamente o tipo de coisa verificável em planos de governo, e não em suposições sobre o que cada campo "realmente quer".


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