domingo, 29 de março de 2026

Educar não é só cumprir metas

Publicado em 29 de março de 2026, o editorial do O Estado de S. Paulo discute um dos principais desafios da educação brasileira atual: transformar o acesso à escola em aprendizagem real. Embora o país tenha avançado significativamente ao garantir que quase todas as crianças estejam matriculadas, isso não significa que elas estejam, de fato, aprendendo.

Logo no início, o texto reconhece um avanço importante ao afirmar que “a matrícula no ensino fundamental tornou-se regra, e não exceção”. No entanto, o próprio editorial destaca que esse progresso precisa ser acompanhado por uma nova preocupação: “como transformar acesso em aprendizagem real”. Esse questionamento é essencial, pois revela que estar na escola não é o mesmo que aprender.

O texto também faz uma crítica importante ao uso excessivo de indicadores educacionais, como o Ideb. Embora reconheça que avaliar é necessário — “Nada há de errado em medir” — o editorial alerta para um problema sério: quando a educação passa a ser guiada apenas por números, perde-se o foco no que realmente importa. Como afirma o texto, “a política educacional se organiza excessivamente em torno de metas numéricas”, o que pode levar a distorções como o ensino voltado apenas para provas.

Essa crítica é reforçada pela educadora Diane Ravitch, que aponta que avaliações padronizadas, quando usadas como objetivo principal, acabam incentivando práticas que melhoram resultados nos testes, mas não garantem aprendizagem verdadeira.

Nesse sentido, é fundamental destacar que aprendizagem não pode ser reduzida a números. Aprender significa desenvolver a capacidade de compreender conceitos básicos, interpretar informações e aplicar o raciocínio lógico em situações simples do cotidiano. Um aluno que apenas memoriza conteúdos para uma prova pode até melhorar indicadores, mas não está necessariamente desenvolvendo essas habilidades essenciais.

Além disso, a educação precisa contribuir para o amadurecimento mental dos alunos. Isso envolve formar indivíduos capazes de pensar criticamente, tomar decisões conscientes e compreender o mundo ao seu redor. Esse tipo de formação não pode ser medido de forma completa por índices ou rankings.

Por isso, o editorial acerta ao afirmar que “a educação é mais do que desempenho em exames”. Reduzir a qualidade da educação a números pode gerar uma falsa sensação de progresso, enquanto problemas reais continuam sem solução. Muitas vezes, há mais preocupação em mostrar bons resultados do que em garantir uma aprendizagem sólida — o que evidencia um excesso de politicagem em torno dos indicadores.

Dessa forma, é necessário repensar as prioridades da educação brasileira. Menos foco em metas numéricas que nem sempre refletem a realidade e mais atenção ao desenvolvimento real dos estudantes. A aprendizagem deve ser entendida como o verdadeiro objetivo da escola, e não apenas como um meio para melhorar estatísticas.

O editorial conclui com uma ideia central muito relevante: “o Brasil precisa recolocar no centro do debate [...] a aprendizagem”. Essa afirmação resume a necessidade urgente de mudança. Não basta ter alunos matriculados ou bons índices — é preciso garantir que eles aprendam, compreendam e sejam capazes de pensar.

Em síntese, o texto apresenta uma crítica necessária e atual. Ele nos faz refletir que uma educação de qualidade não se mede apenas por números, mas pela capacidade dos alunos de entender o mundo e agir de forma consciente nele. Portanto, mais do que cumprir metas, educar deve significar formar mentes.


terça-feira, 24 de março de 2026

A Educação Espetáculo: Quando a Foto na Rede Social Pesa Mais que o Fortalecimento Mental do Aluno


No atual cenário educacional, onde a "curtida" parece ter se tornado a métrica suprema de sucesso, uma prática sutil e perigosa vem se infiltrando nas salas de aula: a educação espetáculo. Professores e gestores, muitas vezes seduzidos pela necessidade de engajamento virtual, transformam o ato de ensinar em um evento performático, onde cada detalhe da aula é capturado, filtrado e postado instantaneamente nas redes sociais da escola ou pessoais. O objetivo parece claro: chamar a atenção, validar o próprio trabalho e projetar uma imagem de inovação pedagógica. O custo, no entanto, é intrínseco e alarmante: o esquecimento do fortalecimento mental do aluno, especialmente na fase crucial de 1º ao 5º ano.

É inegável que a visibilidade e a transparência são importantes. No entanto, a obsessão por registrar o "momento perfeito" cria uma perigosa ilusão de aprendizado. Uma foto colorida de uma atividade lúdica, com alunos sorrindo, pode esconder uma aula pedagogicamente rasa, que não provoca reflexão profunda, não desafia e, fundamentalmente, não acrescenta nada de substantivo aos alunos. A ênfase é colocada na estética da experiência, não na sua essência. O professor torna-se um mediador de imagem, e o aluno, um figurante em seu próprio processo de aprendizado.

Essa negligência é particularmente severa com os alunos do 1º ao 5º ano. Este é o período em que as bases do pensamento crítico, da resiliência, da regulação emocional e da autonomia estão sendo construídas. Ao priorizar o espetáculo, o professor deixa de fortalecer mentalmente esses alunos. Não se discute mais o erro como parte do aprendizado, mas apenas o produto final "perfeito". Não se incentiva a persistência diante de um desafio, mas a atividade que gera a foto mais bonita. A consequência direta é que os alunos, ano após ano, continuam mentalmente fracos e imaturos.

Eles não aprendem a lidar com a frustração, pois tudo é facilitado para que a aula "funcione" na foto. Não aprendem a trabalhar em colaboração de forma genuína, pois a interação é muitas vezes orquestrada para as câmeras. Não desenvolvem a capacidade de se concentrar e aprofundar, pois a aula é segmentada em pílulas de conteúdo visualmente atraentes e de rápida digestão. O resultado é um ciclo vicioso: o aluno não é desafiado, logo não amadurece; e como não amadurece, a escola continua entregando aulas "rasas" e visualmente bonitas para mantê-lo engajado.

Passam-se os anos, e esses alunos chegam às etapas seguintes com dificuldades em gerenciar suas emoções, resolver problemas complexos e assumir responsabilidade por seus próprios estudos. Eles são o resultado de uma educação que se esqueceu de olhar para dentro, para o fortalecimento da mente, e se concentrou apenas no que é visível e imediato.

A crítica intrínseca aqui não é à tecnologia ou à divulgação do trabalho. É ao deslocamento do propósito. O papel fundamental do professor não é ser um "influenciador" da educação, mas um mediador que cultiva não apenas o conhecimento, mas também a força de caráter. Fortalecer mentalmente os alunos do 1º ao 5º ano significa criar um ambiente seguro onde o erro é permitido e discutido, onde o esforço é valorizado sobre o resultado imediato, e onde a reflexão profunda e a autonomia são incentivadas.

É preciso um resgate do propósito educacional. O sucesso de uma aula não pode ser medido pelo número de curtidas no Instagram, mas pela capacidade do professor de provocar o amadurecimento mental de seus alunos. Enquanto a educação for um espetáculo focado na atenção imediata, continuaremos formando gerações que, ano após ano, permanecem mentalmente imaturas, prontas para as câmeras, mas despreparadas para a complexidade da vida real.

quinta-feira, 19 de março de 2026

PROTAGONISMO JUVENIL NA ADOLESCÊNCIA: O SER E O EXISTIR

          O protagonismo juvenil entre os 14 e 17 anos pode ser compreendido como um momento decisivo de despertar para a própria existência e para a construção do ser. Nessa fase, o jovem deixa de ser apenas espectador da vida e passa a assumir um papel ativo, fazendo escolhas, questionando valores e iniciando a construção das bases do seu futuro. A filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir oferece um olhar profundo sobre esse processo.

Para Sartre, “a existência precede a essência”, ou seja, o ser humano não nasce com uma natureza pronta e definida: ele se constrói por meio de suas ações. Aplicado à juventude, isso significa que o adolescente não deve esperar que o mundo diga quem ele é ou o que deve ser. Ao contrário, é justamente nesse período que ele começa a definir sua identidade, assumindo a responsabilidade por suas escolhas. O protagonismo juvenil, portanto, está diretamente ligado à consciência de que cada decisão — estudar, participar, se posicionar — contribui para a construção do próprio ser.

Esse despertar para a existência implica também sair da passividade. O jovem protagonista não apenas “vive”, mas participa ativamente da realidade, questiona, propõe e transforma. Sartre reforça essa ideia ao afirmar que “o homem está condenado a ser livre”, indicando que não há como fugir da responsabilidade de escolher e agir. Mesmo a omissão é uma escolha — e, portanto, também constrói o ser.

Simone de Beauvoir complementa essa visão ao destacar que o indivíduo se forma ao longo da vida, em relação com o mundo e com os outros. Sua célebre frase, “não se nasce, torna-se”, embora originalmente relacionada à condição feminina, pode ser ampliada para pensar a juventude: ninguém nasce pronto, mas se torna aquilo que constrói a partir de suas experiências e atitudes. Assim, o jovem precisa “acordar para a vida”, percebendo que sua realidade não é algo fixo, mas algo em constante construção.

Nesse sentido, o protagonismo juvenil envolve consciência, ação e responsabilidade. É o momento de desenvolver autonomia, participar da comunidade, engajar-se em projetos, expressar ideias e assumir o papel de agente da própria história. Mais do que preparar para o futuro, esse processo já é, em si, a construção do futuro. 

Portanto, entre os 14 e 17 anos, o jovem vive uma fase essencial de afirmação do seu ser. Ao compreender que sua existência é marcada pela liberdade e pela possibilidade de escolha, ele passa a agir com mais intencionalidade. Como propõe o existencialismo, não há um caminho pronto — há caminhos a serem construídos. E é justamente nesse movimento de ação consciente que o jovem deixa de apenas existir e começa, de fato, a ser.

domingo, 1 de março de 2026

A BELEZA QUE SÓ NOSSOS OLHOS PODEM PERCEBER


A beleza capturada em uma fotografia é, muitas vezes, apenas um eco pálido da vibração que o mundo real emite. Quando olhamos para as palmeiras que se estendem sob um céu tingido de âmbar, como nas imagens, a câmera consegue organizar as cores e as formas, mas falha em traduzir a profundidade do horizonte. Há uma imensidão que não cabe em pixels; ela exige a presença física, o ar que preenche os pulmões e a luz que toca a retina sem intermediários, revelando que a natureza não é apenas um cenário, mas uma experiência sensorial completa.

Essa limitação técnica nos faz refletir sobre como enxergamos a nossa própria existência. Vivemos em uma era de registros constantes, onde tentamos enquadrar momentos de felicidade em molduras digitais, esquecendo que o essencial da vida acontece nos intervalos, naquilo que não pode ser fotografado. A paz de um entardecer ou a grandiosidade de um vale verdejante são sentimentos que transbordam qualquer lente, lembrando-nos de que a nossa alma possui uma visão muito mais panorâmica do que qualquer dispositivo tecnológico jamais terá.

É nesse contraste entre o que se vê e o que se sente que a poesia encontra seu lugar. Como bem observou o poeta Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Alberto Caeiro:

"O que nós vemos das coisas são as coisas. / Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra? / Porque é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos / Se ver e ouvir são ver e ouvir?"

Caeiro nos convida a aceitar a pureza do olhar direto, aquele que não busca interpretações, mas sim a entrega total ao que está diante de nós. A natureza, em sua simplicidade majestosa, não precisa de filtros para ser absoluta; ela basta a si mesma para quem sabe apenas observar.

Da mesma forma, nossa jornada pessoal é composta por vastidões que os outros raramente conseguem perceber por completo. Quem olha de fora vê apenas a "paisagem" da nossa vida — os sucessos ou as quedas —, mas não alcança a complexidade das raízes que nos sustentam ou a cor exata das nossas esperanças. Somos como esse horizonte: temos luzes e sombras, momentos de tempestade e de calmaria, e uma beleza profunda que só se revela por inteiro para quem se dispõe a caminhar ao nosso lado, indo além da primeira impressão.

Portanto, que essas fotos sirvam como um lembrete gentil para buscarmos mais a vivência e menos a vitrine. Que saibamos apreciar o brilho do sol e a densidade das nuvens com o mesmo desprendimento da natureza, entendendo que o registro é apenas um rastro, enquanto a vida é o caminho. No fim das contas, a maior beleza que os olhos humanos podem perceber não está no que fica guardado na galeria do celular, mas no que permanece tatuado na memória do coração.

FOTO TIRADA ENTRE MARZAGÃO E ÁGUA LIMPA AS 17:50, EM  26/02/2026, UM DIA DE CHUVA.