Existe uma suposição confortável de que mais educação
formal se traduz automaticamente em mais isenção de julgamento. A pesquisa
empírica não confirma essa expectativa. Kahan (2013) testou diretamente essa
hipótese, expondo pessoas com diferentes níveis de capacidade analítica a um
mesmo problema estatístico, apresentado ora como neutro, ora como politicamente
carregado. O resultado foi contraintuitivo: entre os participantes mais hábeis
em raciocínio numérico, o desempenho piorava justamente quando a resposta
correta ia contra sua identidade política — e piorava ainda mais quanto maior
era a habilidade.
O instrumento por trás disso tem nome. Kahan chama de
"motivated reasoning" o processo pelo qual o cérebro não avalia
evidências para chegar a uma conclusão, mas escolhe e as considera para
proteger uma conclusão à qual já está ligada por pertencimento de grupo.
Sofisticação cognitiva, nesse quadro, não funciona como corretivo — funciona
como ferramenta. Quem tem mais recursos analíticos fica mais capaz de construir
justificativas elaboradas, encontrar a falha metodológica conveniente,
relativizar o dado inconveniente. A capacidade analítica, nesse caso, presta
serviço à identidade, não à verdade.
Vale lembrar que esse fenômeno não pertence a nenhum
campo político específico. Os experimentos de Kahan alternam o partido
favorecido pelo resultado hipotético, e o efeito se repete nos dois sentidos:
conservadores e progressistas, quando o dado ameaça sua posição de grupo, utilizam
capacidade cognitiva para neutralizá-lo, não para revisá-la. Não é, portanto,
um déficit de um lado e uma virtude do outro — é uma tendência estrutural da
cognição humana em contextos de identidade coletiva.
Este debate incomoda porque inverte um pressuposto
comum do debate público: o de que basta mais informação, mais dado, mais
argumento bem construído para dissolver o desacordo. Se a resistência não é
falta de capacidade, mas proteção de pertencimento, o excesso de argumentação
pode até aprofundar a polarização, ao dar a cada lado ferramentas melhores para
resistir ao outro. Reconhecer isso não resolve o problema, mas evita o erro de
atribuir a quem discorda uma simples incapacidade de pensar.

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