sábado, 23 de maio de 2026

Ainda Somos (Em Parte) Terceiro Mundo?

Por: Prof. Márcio Pires da Silva

Ao analisarmos a evolução demográfica e social do Brasil nas últimas décadas, é inegável que o país acumulou conquistas estruturais significativas. Se voltarmos os olhos para os anos 1970 e 1980, o Brasil sobrevivia sob o peso de indicadores típicos de um "Terceiro Mundo" subdesenvolvido: a expectativa de vida ao nascer na década de 1970 orbitava a precária média de 57 anos, e a taxa de mortalidade infantil dizimava dezenas de crianças a cada mil nascidos vivos, impulsionada por epidemias de desidratação, desnutrição e ausência quase absoluta de saneamento básico no interior. Com a universalização da saúde pública pelo SUS a partir de 1988, a expansão das redes de vacinação e a melhoria na infraestrutura urbana, as médias nacionais saltaram de forma robusta, aproximando o país dos índices de longevidade globais.

Contudo, a publicação da reportagem "Diferença na expectativa de vida supera 14 anos no Brasil; veja em seu estado" (Folha de S.Paulo, 2026) funciona como um doloroso choque de realidade. Os números agregados e as médias nacionais otimistas, que muitas vezes celebram o envelhecimento recorde da população e a aproximação dos padrões do "Primeiro Mundo", servem apenas para camuflar um abismo interno. O estudo conduzido pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o Cedeplar/UFMG revela que o Brasil não avançou de forma homogênea: coexistem no mesmo território nacional ilhas de desenvolvimento europeu e bolsões de miséria e violência que nos retêm, em parte, no atraso do século passado.

A disparidade máxima identificada pela pesquisa expõe essa fratura: enquanto uma mulher branca residente em Santa Catarina possui uma expectativa de vida média de 80,9 anos — patamar equivalente ao de nações desenvolvidas da Europa —, um homem negro nascido em Alagoas tem uma estimativa de vida de apenas 66,7 anos. Estamos diante de uma distância brutal de 14,2 anos que separa o topo e a base da nossa pirâmide social. Três pilares sustentam esse abismo demográfico: "as diferenças de gênero, que respondem por 56% do intervalo; as desigualdades raciais, que representam 23%; e as disparidades regionais, responsáveis por 21% da variação".

Quando nos deslocamos para os rincões de pobreza pelo interior, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, as deficiências estruturais que caracterizavam o Brasil dos anos 1970 e 1980 continuam operando de forma perversa na redução do tempo de vida dos cidadãos. Conforme explica o professor de demografia Cássio Turra, as assimetrias regionais na longevidade são alimentadas por "redes de saneamento deficitárias, maiores distâncias entre centros com atendimento médico emergencial e de ponta... mais emprego informal e menos recursos entre a população para que possa adquirir planos privados de saúde". Essa falta de acesso a serviços básicos de saúde e infraestrutura pune severamente o público feminino negro e periférico, cuja perda de expectativa de vida está atrelada à maior incidência de doenças cardiovasculares, respiratórias e neoplasias não tratadas a tempo na faixa dos 35 aos 59 anos.

Por outro lado, o fator que mais abrevia a existência da população masculina nas periferias e interiores não é biológico, mas social: a violência civil. O cruzamento de dados feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) aponta uma estatística alarmante de violência endêmica: entre as vítimas de homicídios no Brasil, 91% são homens, 79% são negros e quase metade tem idade até 29 anos. Como destaca a coordenadora técnica Juliana Brandão, "o fato de ser negro aumenta em três vezes a chance de ser assassinado em relação à população branca". Essa sobremortalidade por causas externas retira de forma violenta a juventude do interior e das periferias, gerando uma distorção demográfica onde "quase metade da diferença de longevidade entre brancos e negros deve-se a causas externas, especialmente homicídios". Se essa violência generalizada fosse neutralizada, a expectativa de vida dos homens negros ganharia imediatamente três anos de vida.

Em suma, responder à questão se "ainda somos Terceiro Mundo" exige abandonar as ilusões estatísticas das médias nacionais, que servem apenas para ocultar a desigualdade. O Brasil melhorou em relação ao cenário desolador dos anos 1970 e 1980, mas a persistência de um hiato de 14 anos na sobrevivência de seus cidadãos prova que a cidadania plena e o direito de envelhecer com dignidade ainda são condicionados pela cor da pele, pelo gênero e pelo CEP de nascimento. Romper essa barreira colonial exige que o Estado direcione políticas públicas de proteção social, infraestrutura e saúde com precisão cirúrgica para as populações mais vulneráveis, sob a pena de continuarmos sendo um país rico que abriga, em suas entranhas, realidades de profunda exclusão.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Nossas palavras, pensamentos e atitudes possuem força

No jornal O Globo, em sua edição digital desta sexta-feira, 22 de maio de 2026, foi publicada uma entrevista com o psicólogo canadense Michael Losier sobre a chamada “lei da atração” e a influência dos pensamentos em nossa vida. A matéria, escrita pela jornalista Constança Tatsch, traz reflexões importantes que podem ser relacionadas diretamente à nossa realidade aqui no interior de Goiás, especialmente ao trabalho desenvolvido dentro das escolas.

No interior goiano, aprendemos desde cedo que a vida é feita de luta, simplicidade e esperança. Quem trabalha na escola conhece bem essa realidade: professores que acordam cedo, enfrentam dificuldades, lidam com alunos de diferentes histórias e, mesmo assim, continuam acreditando que a educação pode transformar vidas. É justamente nesse contexto que a entrevista publicada hoje em O Globo nos faz refletir sobre a força dos nossos pensamentos e das palavras que escolhemos todos os dias.

Segundo Michael Losier, “a lei da atração não responde às palavras, responde ao que você dá atenção”. Essa frase nos leva a pensar em quantas vezes, dentro da escola, focamos apenas nos problemas: na indisciplina, na falta de recursos, no desânimo ou nas dificuldades da aprendizagem. Quando fazemos isso, acabamos alimentando ainda mais aquilo que nos preocupa. O psicólogo propõe uma mudança de olhar: em vez de repetir “meus alunos não querem aprender”, devemos perguntar “como posso despertar neles o desejo de aprender?”. A mudança parece simples, mas transforma nossa postura e nossa energia dentro da sala de aula.

Aqui no interior de Goiás, onde muitas famílias vivem do trabalho duro na roça, no comércio ou em serviços simples, os estudantes precisam ouvir palavras que os incentivem a sonhar. Muitas vezes, eles crescem escutando que “isso não é para gente como nós”, ou que “é impossível chegar longe”. Na entrevista publicada pelo jornal O Globo, Losier afirma que “é importante se cercar de pessoas que também são grandes sonhadoras”. A escola, então, precisa ser esse lugar onde os sonhos são permitidos. O professor não ensina apenas conteúdos; ele também planta esperança.

Outro ensinamento importante apresentado na entrevista é quando o psicólogo diz: “Você recebe aquilo que vibra”. Isso não significa ignorar as dificuldades reais da vida, mas entender que a maneira como encaramos os desafios influencia diretamente nossas atitudes. Um aluno que acredita que é incapaz tende a desistir mais rápido. Já aquele que aprende a valorizar pequenas conquistas ganha força para continuar tentando. O mesmo acontece conosco, educadores. Quando valorizamos os avanços diários — um aluno que melhorou a leitura, outro que voltou a frequentar as aulas, uma turma que participou mais — começamos a perceber que a transformação acontece aos poucos.

Michael Losier também fala sobre o medo de sonhar grande. Muitas vezes, por receio da frustração, preferimos pensar pequeno. Porém, ele lembra que “o primeiro passo é aceitar que é permitido querer algo e pedir por isso”. Essa mensagem é essencial para nossos jovens do interior de Goiás. Eles precisam compreender que podem chegar à universidade, conquistar uma profissão digna, abrir um negócio ou mudar a realidade da própria família. O lugar onde nasceram não limita o tamanho dos seus sonhos.

Na prática escolar, isso significa ensinar os alunos a desenvolverem confiança, responsabilidade e pensamento positivo. Não um positivismo vazio, mas uma postura de perseverança diante da vida. Afinal, a educação também é um exercício de acreditar no futuro.

Assim, a grande lição da entrevista publicada hoje na edição digital do jornal O Globo é que nossas palavras, pensamentos e atitudes possuem força. Quando professores e alunos aprendem a focar mais nas possibilidades do que nos limites, a escola deixa de ser apenas um prédio e se torna um espaço de transformação humana. E talvez seja exatamente isso que o interior de Goiás mais precisa: pessoas que continuem acreditando, trabalhando e sonhando, mesmo diante das dificuldades.

sábado, 16 de maio de 2026

A Fragmentação do Espectro: Uma Análise Crítica sobre as Políticas de Classificação e Invisibilidade no TEA

 Por: Prof. Márcio Pires da Silva

Introdução

A publicação da reportagem "Debate sobre TEA expõe tensão entre autistas nível 1 e pais dos casos severos" traz à tona uma das discussões mais complexas e urgentes da neurociência e da sociologia contemporâneas. A unificação de diferentes condições sob o guarda-chuva do Transtorno do Espectro Autista (TEA), realizada em 2013 pelo manual psiquiátrico DSM-5, é colocada em xeque devido aos abismos práticos existentes entre as diferentes gradações do transtorno. Este artigo propõe uma análise crítica dos impactos positivos e negativos dessa categorização, evidenciando como a burocracia institucional e os critérios biomédicos afetam diretamente a distribuição de direitos e a formulação de políticas públicas no Brasil.

Aspectos Positivos: A Força da Identidade Coletiva

Inicialmente, é mandatório reconhecer o avanço civilizatório promovido pela criação do espectro amplo. Conforme aponta o neuropediatra Paulo Liberalesso na reportagem, "o conceito de espectro teve um papel fundamental na construção de uma identidade coletiva e na mobilização por direitos".

Sob a ótica legal brasileira, a unificação permitiu que indivíduos antes dispersos em diagnósticos isolados — como a antiga Síndrome de Asperger — passassem a usufruir das garantias jurídicas fundamentais da Lei Berenice Piana (2012) e da Lei Brasileira de Inclusão (2015). A consolidação de uma "voz própria" na liderança dos movimentos sociais, conduzida majoritariamente por autistas nível 1, retirou o debate da esfera puramente assistencialista e gerou um ganho inegável em termos de conscientização nacional.

Aspectos Negativos: A Invisibilidade do Autismo Profundo e o "Mascaramento"

Contudo, a universalidade do termo "espectro" acabou por camuflar disparidades socioeconômicas e clínicas alarmantes. O principal ponto cego dessa política reside na negligência com o chamado autismo profundo, que atinge 26% do contingente de autistas, mas que capta uma parcela irrisória de apenas 6% das pesquisas científicas globais. Como denuncia o pesquisador Lucelmo Lacerda, o cotidiano de indivíduos dependentes de cuidados 24 horas por dia e com severo comprometimento intelectual é frequentemente apagado por uma cobertura midiática focada exclusivamente em "histórias de superação, de autista que foi para a faculdade, que se casou".

Por outro lado, a unificação também penaliza os indivíduos classificados no nível 1. A falsa simetria criada pelo rótulo de autismo "leve" faz com que a sociedade minimize o sofrimento psicológico dessas pessoas, que enfrentam altos índices de desemprego e esgotamento (burnout) decorrentes do esforço exaustivo para "forçar contato visual, monitorar o tom de voz e engolir o pânico sensorial para não ser chamado de ‘esquisito’". Adicionalmente, observa-se uma exclusão ilegal em triagens de concursos públicos e cotas, sustentada pelo julgamento burocrático e preconceituoso de que tais sujeitos "não seriam deficientes o suficiente".

O que deve ser feito? Caminhos para a Efetiva Inclusão

Diante desse cenário de saturação do modelo atual, mudanças profundas precisam ser operadas na gestão pública e nos critérios de diagnóstico:

  1. Especificação Orçamentária e Descentralização de Recursos: O Estado brasileiro não pode continuar gerando políticas macroeconômicas ou pedagógicas baseadas no número absoluto de laudos de TEA. É urgente que o direcionamento de verbas para a contratação de profissionais de apoio escolar e terapias especializadas considere a especificidade de cada nível, sob pena de deixar os casos de nível 2 e 3 desamparados devido ao preenchimento de vagas por demandas de menor complexidade.
  2. Ampliação do Debate para Além do Nível 1: Conforme alertado pela deputada Andréa Werner, as esferas governamentais precisam incluir ativamente as famílias dos autistas severos nas mesas de negociação. Uma inclusão real "não pode excluir as famílias do debate", evitando que indivíduos altamente funcionais definam, sozinhos, as diretrizes de quem não possui linguagem funcional.
  3. Acolhimento Pragmático das Transições Científicas (CID-11): A entrada em vigor da nova Classificação Internacional de Doenças (CID-11) no Brasil, prevista para janeiro de 2027, deve ser utilizada como um marco de transição pedagógica e médica. A introdução de subníveis mais claros baseados na presença ou ausência de linguagem funcional e deficiência intelectual servirá para refinar o diagnóstico e combater injustiças burocráticas.

Conclusão

Em suma, o debate expõe o que a filosofia foucaultiana define como o poder dos discursos médicos sobre a regulação dos corpos e dos direitos dos cidadãos. Fragmentar o espectro de forma abrupta pode, de fato, enfraquecer a força política do movimento coletivo; contudo, manter a homogeneidade atual às custas do silenciamento do autismo profundo e da invalidação do sofrimento do nível 1 é perpetuar uma estrutura de exclusão precária. O caminho à frente exige uma neurociência contemporânea aliada a políticas públicas sensíveis às diferenças reais, garantindo equidade e amparo para todas as mentes.

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

A VIDA ACONTECE HOJE

 


O sol nasce lentamente no horizonte entre Marzagão e Água Limpa, tingindo o céu com tons dourados e alaranjados que anunciam a chegada de um novo dia de outono. São 6h30, e a paisagem desperta em silêncio, como se a própria natureza respirasse fundo antes de seguir seu curso. A luz suave se espalha pelos campos verdes, tocando as árvores, refletindo na água ao longe e aquecendo a terra ainda fresca da madrugada.

Há algo de profundamente transformador nesse instante. O sol, deslumbrante e amarelado, não apenas ilumina, mas também convida. Convida à pausa, à contemplação, à gratidão. Ele marca a mudança do clima, sim, mas também pode marcar uma mudança dentro de nós. A cada amanhecer, a vida nos oferece a chance de recomeçar — não como uma promessa distante, mas como uma realidade concreta que se manifesta no agora.

Muitas vezes nos perdemos pensando no amanhã, como se ele fosse o verdadeiro palco da vida. Mas a verdade é mais simples e, ao mesmo tempo, mais exigente: a vida acontece hoje. É neste instante que sentimos, escolhemos, erramos, aprendemos e crescemos. O objetivo da vida é viver — plenamente, intensamente — não o amanhã que ainda não chegou, mas o hoje que já está diante de nós.

Aprendemos, estudamos, planejamos… tudo isso tem valor, mas apenas quando nos ajuda a viver melhor o presente. O agora é o único tempo que realmente possuímos. E assim como o sol que nasce todos os dias sem falhar, a vida também se renova constantemente, pedindo apenas que estejamos presentes para percebê-la.

Diante dessa paisagem serena, fica um lembrete silencioso: viver é um ato de presença. É olhar ao redor, sentir a luz, reconhecer a beleza e agradecer. Porque, no fim, não é o amanhã que transforma — é o hoje bem vivido.

domingo, 5 de abril de 2026

A Felicidade é a Ausência de Infelicidade

A ideia de que a felicidade precisa ser um estado de euforia constante é, talvez, um dos maiores enganos da nossa época. Fomos condicionados a acreditar que ser feliz é sinônimo de estar sorrindo o tempo todo, dando pulos de alegria ou acumulando demonstrações efusivas de satisfação. No entanto, a verdadeira felicidade pode ser muito mais silenciosa e discreta: ela é, em essência, a ausência de infelicidade.

Se você não está infeliz, você está feliz. Essa lógica simples nos devolve a paz que a pressão social tenta roubar. Muitas vezes, estamos calados, sozinhos, apenas sentindo o peso suave do momento presente. Não há fogos de artifício, não há necessidade de "colecionar momentos" para postar em redes sociais, nem o esforço exaustivo de provar ao mundo que a vida é perfeita. Na verdade, essa busca frenética por preencher o tempo com viagens e fotos perfeitas costuma ser apenas uma tentativa de mascarar um vazio que insiste em ecoar.

A felicidade real convive com os problemas. Estar feliz não significa ter uma vida isenta de dificuldades, boletos ou preocupações; significa estar em paz apesar deles. É aquele estado de tranquilidade onde a alma repousa, mesmo que o mundo ao redor esteja barulhento. É saber que o silêncio do seu quarto ou a calmaria de um pensamento são o suficiente.

Como bem escreveu o poeta Fernando Pessoa (através de seu heterônimo Alberto Caeiro), a felicidade não é um mistério complexo, mas sim um estado de ser e estar no mundo com simplicidade:

"O que importa é saber ver, Saber ver sem estar a pensar, Saber ver quando se vê, E nem pensar quando se vê Nem ver quando se pensa."

Em outro momento, no seu "Guardador de Rebanhos", ele nos lembra que:

"A alegria não vem de fora, mas de dentro. O essencial é saber ser simples. Pois a felicidade é não ser infeliz."

Portanto, se hoje você se sente tranquilo, se o seu coração está em silêncio e você não sente o peso da angústia, celebre. Você está feliz, da forma mais pura e honesta que existe: sem plateia, sem filtros, apenas em paz consigo mesmo.

domingo, 29 de março de 2026

Educar não é só cumprir metas

Publicado em 29 de março de 2026, o editorial do O Estado de S. Paulo discute um dos principais desafios da educação brasileira atual: transformar o acesso à escola em aprendizagem real. Embora o país tenha avançado significativamente ao garantir que quase todas as crianças estejam matriculadas, isso não significa que elas estejam, de fato, aprendendo.

Logo no início, o texto reconhece um avanço importante ao afirmar que “a matrícula no ensino fundamental tornou-se regra, e não exceção”. No entanto, o próprio editorial destaca que esse progresso precisa ser acompanhado por uma nova preocupação: “como transformar acesso em aprendizagem real”. Esse questionamento é essencial, pois revela que estar na escola não é o mesmo que aprender.

O texto também faz uma crítica importante ao uso excessivo de indicadores educacionais, como o Ideb. Embora reconheça que avaliar é necessário — “Nada há de errado em medir” — o editorial alerta para um problema sério: quando a educação passa a ser guiada apenas por números, perde-se o foco no que realmente importa. Como afirma o texto, “a política educacional se organiza excessivamente em torno de metas numéricas”, o que pode levar a distorções como o ensino voltado apenas para provas.

Essa crítica é reforçada pela educadora Diane Ravitch, que aponta que avaliações padronizadas, quando usadas como objetivo principal, acabam incentivando práticas que melhoram resultados nos testes, mas não garantem aprendizagem verdadeira.

Nesse sentido, é fundamental destacar que aprendizagem não pode ser reduzida a números. Aprender significa desenvolver a capacidade de compreender conceitos básicos, interpretar informações e aplicar o raciocínio lógico em situações simples do cotidiano. Um aluno que apenas memoriza conteúdos para uma prova pode até melhorar indicadores, mas não está necessariamente desenvolvendo essas habilidades essenciais.

Além disso, a educação precisa contribuir para o amadurecimento mental dos alunos. Isso envolve formar indivíduos capazes de pensar criticamente, tomar decisões conscientes e compreender o mundo ao seu redor. Esse tipo de formação não pode ser medido de forma completa por índices ou rankings.

Por isso, o editorial acerta ao afirmar que “a educação é mais do que desempenho em exames”. Reduzir a qualidade da educação a números pode gerar uma falsa sensação de progresso, enquanto problemas reais continuam sem solução. Muitas vezes, há mais preocupação em mostrar bons resultados do que em garantir uma aprendizagem sólida — o que evidencia um excesso de politicagem em torno dos indicadores.

Dessa forma, é necessário repensar as prioridades da educação brasileira. Menos foco em metas numéricas que nem sempre refletem a realidade e mais atenção ao desenvolvimento real dos estudantes. A aprendizagem deve ser entendida como o verdadeiro objetivo da escola, e não apenas como um meio para melhorar estatísticas.

O editorial conclui com uma ideia central muito relevante: “o Brasil precisa recolocar no centro do debate [...] a aprendizagem”. Essa afirmação resume a necessidade urgente de mudança. Não basta ter alunos matriculados ou bons índices — é preciso garantir que eles aprendam, compreendam e sejam capazes de pensar.

Em síntese, o texto apresenta uma crítica necessária e atual. Ele nos faz refletir que uma educação de qualidade não se mede apenas por números, mas pela capacidade dos alunos de entender o mundo e agir de forma consciente nele. Portanto, mais do que cumprir metas, educar deve significar formar mentes.


terça-feira, 24 de março de 2026

A Educação Espetáculo: Quando a Foto na Rede Social Pesa Mais que o Fortalecimento Mental do Aluno


No atual cenário educacional, onde a "curtida" parece ter se tornado a métrica suprema de sucesso, uma prática sutil e perigosa vem se infiltrando nas salas de aula: a educação espetáculo. Professores e gestores, muitas vezes seduzidos pela necessidade de engajamento virtual, transformam o ato de ensinar em um evento performático, onde cada detalhe da aula é capturado, filtrado e postado instantaneamente nas redes sociais da escola ou pessoais. O objetivo parece claro: chamar a atenção, validar o próprio trabalho e projetar uma imagem de inovação pedagógica. O custo, no entanto, é intrínseco e alarmante: o esquecimento do fortalecimento mental do aluno, especialmente na fase crucial de 1º ao 5º ano.

É inegável que a visibilidade e a transparência são importantes. No entanto, a obsessão por registrar o "momento perfeito" cria uma perigosa ilusão de aprendizado. Uma foto colorida de uma atividade lúdica, com alunos sorrindo, pode esconder uma aula pedagogicamente rasa, que não provoca reflexão profunda, não desafia e, fundamentalmente, não acrescenta nada de substantivo aos alunos. A ênfase é colocada na estética da experiência, não na sua essência. O professor torna-se um mediador de imagem, e o aluno, um figurante em seu próprio processo de aprendizado.

Essa negligência é particularmente severa com os alunos do 1º ao 5º ano. Este é o período em que as bases do pensamento crítico, da resiliência, da regulação emocional e da autonomia estão sendo construídas. Ao priorizar o espetáculo, o professor deixa de fortalecer mentalmente esses alunos. Não se discute mais o erro como parte do aprendizado, mas apenas o produto final "perfeito". Não se incentiva a persistência diante de um desafio, mas a atividade que gera a foto mais bonita. A consequência direta é que os alunos, ano após ano, continuam mentalmente fracos e imaturos.

Eles não aprendem a lidar com a frustração, pois tudo é facilitado para que a aula "funcione" na foto. Não aprendem a trabalhar em colaboração de forma genuína, pois a interação é muitas vezes orquestrada para as câmeras. Não desenvolvem a capacidade de se concentrar e aprofundar, pois a aula é segmentada em pílulas de conteúdo visualmente atraentes e de rápida digestão. O resultado é um ciclo vicioso: o aluno não é desafiado, logo não amadurece; e como não amadurece, a escola continua entregando aulas "rasas" e visualmente bonitas para mantê-lo engajado.

Passam-se os anos, e esses alunos chegam às etapas seguintes com dificuldades em gerenciar suas emoções, resolver problemas complexos e assumir responsabilidade por seus próprios estudos. Eles são o resultado de uma educação que se esqueceu de olhar para dentro, para o fortalecimento da mente, e se concentrou apenas no que é visível e imediato.

A crítica intrínseca aqui não é à tecnologia ou à divulgação do trabalho. É ao deslocamento do propósito. O papel fundamental do professor não é ser um "influenciador" da educação, mas um mediador que cultiva não apenas o conhecimento, mas também a força de caráter. Fortalecer mentalmente os alunos do 1º ao 5º ano significa criar um ambiente seguro onde o erro é permitido e discutido, onde o esforço é valorizado sobre o resultado imediato, e onde a reflexão profunda e a autonomia são incentivadas.

É preciso um resgate do propósito educacional. O sucesso de uma aula não pode ser medido pelo número de curtidas no Instagram, mas pela capacidade do professor de provocar o amadurecimento mental de seus alunos. Enquanto a educação for um espetáculo focado na atenção imediata, continuaremos formando gerações que, ano após ano, permanecem mentalmente imaturas, prontas para as câmeras, mas despreparadas para a complexidade da vida real.

quinta-feira, 19 de março de 2026

PROTAGONISMO JUVENIL NA ADOLESCÊNCIA: O SER E O EXISTIR

          O protagonismo juvenil entre os 14 e 17 anos pode ser compreendido como um momento decisivo de despertar para a própria existência e para a construção do ser. Nessa fase, o jovem deixa de ser apenas espectador da vida e passa a assumir um papel ativo, fazendo escolhas, questionando valores e iniciando a construção das bases do seu futuro. A filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir oferece um olhar profundo sobre esse processo.

Para Sartre, “a existência precede a essência”, ou seja, o ser humano não nasce com uma natureza pronta e definida: ele se constrói por meio de suas ações. Aplicado à juventude, isso significa que o adolescente não deve esperar que o mundo diga quem ele é ou o que deve ser. Ao contrário, é justamente nesse período que ele começa a definir sua identidade, assumindo a responsabilidade por suas escolhas. O protagonismo juvenil, portanto, está diretamente ligado à consciência de que cada decisão — estudar, participar, se posicionar — contribui para a construção do próprio ser.

Esse despertar para a existência implica também sair da passividade. O jovem protagonista não apenas “vive”, mas participa ativamente da realidade, questiona, propõe e transforma. Sartre reforça essa ideia ao afirmar que “o homem está condenado a ser livre”, indicando que não há como fugir da responsabilidade de escolher e agir. Mesmo a omissão é uma escolha — e, portanto, também constrói o ser.

Simone de Beauvoir complementa essa visão ao destacar que o indivíduo se forma ao longo da vida, em relação com o mundo e com os outros. Sua célebre frase, “não se nasce, torna-se”, embora originalmente relacionada à condição feminina, pode ser ampliada para pensar a juventude: ninguém nasce pronto, mas se torna aquilo que constrói a partir de suas experiências e atitudes. Assim, o jovem precisa “acordar para a vida”, percebendo que sua realidade não é algo fixo, mas algo em constante construção.

Nesse sentido, o protagonismo juvenil envolve consciência, ação e responsabilidade. É o momento de desenvolver autonomia, participar da comunidade, engajar-se em projetos, expressar ideias e assumir o papel de agente da própria história. Mais do que preparar para o futuro, esse processo já é, em si, a construção do futuro. 

Portanto, entre os 14 e 17 anos, o jovem vive uma fase essencial de afirmação do seu ser. Ao compreender que sua existência é marcada pela liberdade e pela possibilidade de escolha, ele passa a agir com mais intencionalidade. Como propõe o existencialismo, não há um caminho pronto — há caminhos a serem construídos. E é justamente nesse movimento de ação consciente que o jovem deixa de apenas existir e começa, de fato, a ser.

domingo, 1 de março de 2026

A BELEZA QUE SÓ NOSSOS OLHOS PODEM PERCEBER


A beleza capturada em uma fotografia é, muitas vezes, apenas um eco pálido da vibração que o mundo real emite. Quando olhamos para as palmeiras que se estendem sob um céu tingido de âmbar, como nas imagens, a câmera consegue organizar as cores e as formas, mas falha em traduzir a profundidade do horizonte. Há uma imensidão que não cabe em pixels; ela exige a presença física, o ar que preenche os pulmões e a luz que toca a retina sem intermediários, revelando que a natureza não é apenas um cenário, mas uma experiência sensorial completa.

Essa limitação técnica nos faz refletir sobre como enxergamos a nossa própria existência. Vivemos em uma era de registros constantes, onde tentamos enquadrar momentos de felicidade em molduras digitais, esquecendo que o essencial da vida acontece nos intervalos, naquilo que não pode ser fotografado. A paz de um entardecer ou a grandiosidade de um vale verdejante são sentimentos que transbordam qualquer lente, lembrando-nos de que a nossa alma possui uma visão muito mais panorâmica do que qualquer dispositivo tecnológico jamais terá.

É nesse contraste entre o que se vê e o que se sente que a poesia encontra seu lugar. Como bem observou o poeta Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Alberto Caeiro:

"O que nós vemos das coisas são as coisas. / Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra? / Porque é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos / Se ver e ouvir são ver e ouvir?"

Caeiro nos convida a aceitar a pureza do olhar direto, aquele que não busca interpretações, mas sim a entrega total ao que está diante de nós. A natureza, em sua simplicidade majestosa, não precisa de filtros para ser absoluta; ela basta a si mesma para quem sabe apenas observar.

Da mesma forma, nossa jornada pessoal é composta por vastidões que os outros raramente conseguem perceber por completo. Quem olha de fora vê apenas a "paisagem" da nossa vida — os sucessos ou as quedas —, mas não alcança a complexidade das raízes que nos sustentam ou a cor exata das nossas esperanças. Somos como esse horizonte: temos luzes e sombras, momentos de tempestade e de calmaria, e uma beleza profunda que só se revela por inteiro para quem se dispõe a caminhar ao nosso lado, indo além da primeira impressão.

Portanto, que essas fotos sirvam como um lembrete gentil para buscarmos mais a vivência e menos a vitrine. Que saibamos apreciar o brilho do sol e a densidade das nuvens com o mesmo desprendimento da natureza, entendendo que o registro é apenas um rastro, enquanto a vida é o caminho. No fim das contas, a maior beleza que os olhos humanos podem perceber não está no que fica guardado na galeria do celular, mas no que permanece tatuado na memória do coração.

FOTO TIRADA ENTRE MARZAGÃO E ÁGUA LIMPA AS 17:50, EM  26/02/2026, UM DIA DE CHUVA.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Vida, verdade e tempo


A estrada segue adiante, silenciosa, molhada pela chuva recente, enquanto as montanhas permanecem firmes ao fundo, como quem sabe esperar. A paisagem não corre — somos nós que passamos apressados. O tempo, ali, parece outro: não o do relógio, mas o da natureza, que cresce, amadurece e se renova sem pressa. É curioso como, na correria do dia a dia, quase não percebemos esse tempo maior, mais verdadeiro, que insiste em nos lembrar de que a vida não é apenas chegar, mas caminhar.

A verdade se revela nesses instantes simples: no verde que se espalha, no céu que se abre, na estrada que convida à travessia. A vida pede pausa. Pede olhar atento. Pede presença. Entre compromissos e urgências, esquecemos que o essencial acontece devagar — nas conversas sem agenda, nos abraços que demoram, no estar junto com quem amamos sem medir minutos.

O tempo, quando observado de perto, não nos persegue; ele nos acompanha. Somos nós que, muitas vezes, o deixamos para trás. A paisagem ensina: viver é aprender a desacelerar, a reconhecer a beleza que insiste em existir mesmo quando estamos cansados, a escolher estar inteiro onde os pés pisam.

Vida, verdade e tempo se encontram quando entendemos que viver bem não é correr mais, mas sentir mais. É permitir que o caminho nos transforme, que o silêncio nos ensine e que o amor seja o nosso ritmo. Porque, no fim, o tempo não passa — nós é que passamos por ele. E o que fica é a forma como escolhemos viver.

(Foto tirada no dia 05/02/2026, as 18:10, ao fundo mostra a Serra de Caldas e  Cidade de Rio Quente, chegando via Marzagão)

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Reflexões, medos e desafios

 

A vida tem um jeito curioso de nos atravessar. Às vezes, arrasta-se lenta, chata, repetitiva, como se estivesse testando nossa paciência. Noutras, revela-se perversa, capaz de nos empurrar contra as paredes daquilo que tememos — o fracasso, a perda, o silêncio de quem amamos ou mesmo a solidão de não sabermos se estamos no caminho certo.

Mas, de repente, sem qualquer aviso prévio, ela abre uma janela. E por essa janela entram brisas que cheiram a esperança, luzes inesperadas, e paisagens como essa, onde a manhã se acende lentamente e a névoa abraça as montanhas, como se o próprio céu decidisse descansar mais um pouco sobre a terra. É nesses instantes que o coração se acalma e quase entende a razão de permanecer.

Porque quando Deus nos dá uma missão — não uma tarefa qualquer, mas uma missão — algo muda dentro de nós. É como se Ele soprasse um propósito que nos costura ao mundo. E então, mesmo que a vida seja dura, mesmo que cole marcas, mesmo que o medo nos visite mais vezes do que gostaríamos, nasce em nós uma vontade profunda de ficar. De resistir. De não desistir.

A missão que Deus nos confia tem esse brilho: ela nos tira do desânimo, recolhe nossos pedaços e nos envia de volta ao dia, mais fortes do que antes. E se a vida tem seus desertos, também tem seus jardins. Se tem seus temporais, também tem seus amanheceres. E cada amanhecer carrega a promessa de que, enquanto houver propósito, haverá também motivos para continuar caminhando — ainda que devagar, ainda que com medo, ainda que em silêncio.

Porque viver é assim: um equilíbrio frágil entre o que dói e o que vale a pena. E no meio disso tudo, Deus nos mostra que o tempo nunca é por acaso e que quem tem missão não abandona o caminho. Apenas respira fundo e segue — com fé, com coragem e com essa estranha certeza de que ainda há muito a se viver e muito a transformar.

(Foto tirada no dia 27/01/2026 as 6 horas da manhã, saíde de Água Limpa para Marzagão, descida da Serra da Garapa)

domingo, 11 de janeiro de 2026

Mensagem de Esperança e Paz — Inspirada no Salmo 23

O Salmo 23 é um dos textos mais belos sobre confiança e esperança. Nele, a vida não é descrita como isenta de dificuldades, mas como um caminho onde nada nos falta quando seguimos guiados com fé e serenidade. “O Senhor é meu pastor; nada me faltará” não significa abundância material sem limites, e sim a certeza interior de que teremos o necessário — força, coragem e amor — para atravessar nossos dias.

Quando chegamos às fases difíceis da vida, quando os medos crescem ou quando não sabemos qual direção tomar, o salmista nos lembra de que há sempre descanso para a alma: “Deita-me em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.” A imagem é de paz e cuidado. Até em meio ao caos do mundo, podemos encontrar um lugar interior de calma, onde o coração respira.

O texto também reconhece que existem vales profundos, sombras e ameaças. “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum.” A esperança não vem da ausência do mal, mas da certeza de que não caminhamos sozinhos. É essa companhia invisível e amorosa que nos sustenta quando o chão parece desaparecer.

E para além do medo, o Salmo aponta para aquilo que mais buscamos: proteção, consolo e dignidade. “A tua vara e o teu cajado me consolam.” Mesmo nos dias em que o medo pesa, há sempre um cuidado silencioso que nos abraça e nos mantém de pé.

Por fim, o salmista conclui com uma promessa que vai além do instante presente: “Bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida.” É um lembrete de que o futuro não precisa ser visto com ansiedade, mas com confiança. O que hoje é incerteza, amanhã pode ser resposta. O que hoje é lágrima, amanhã pode ser alegria.

Que esta mensagem inspire paz em nossos dias e nos ajude a caminhar com menos medo e mais esperança. Que possamos encontrar nossos próprios “pastos verdes” e “águas tranquilas”, mesmo em meio às sombras. E que a bondade — nossa e do mundo — nos acompanhe sempre. Porque a vida pode ser leve quando o coração encontra repouso.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O fim da imortalidade

Durante a juventude, vivemos como se o tempo fosse um aliado eterno. Na adolescência e na vida adulta, a ideia de morte parece distante, quase abstrata, como algo que pertence sempre ao outro, nunca a nós. O corpo responde, os dias passam rápidos, os projetos se multiplicam, e a sensação íntima é de permanência. Há pressa, há sonhos, há futuro demais para pensar em finitude.

Mas algo muda quando atravessamos a fronteira dos cinquenta anos. Ao chegar aos cinquenta e tantos, aproximando-nos dos sessenta, a vida começa a falar mais alto — e com outro tom. O espelho já não mente, o corpo dá sinais, e o tempo deixa de ser apenas calendário para se tornar consciência. Não é medo imediato, é lucidez. Uma lucidez silenciosa que se instala aos poucos.

Essa percepção se aprofunda quando, quase sem aviso, pessoas próximas começam a partir. Amigos, colegas, conhecidos da mesma geração. Às vezes de forma repentina, “do nada”, como se a vida tivesse sido interrompida no meio da frase. Cada despedida deixa uma marca, e essas marcas, somadas, constroem uma certeza difícil de ignorar: a de que somos finitos. A morte deixa de ser conceito filosófico e passa a ser presença cotidiana, ainda que discreta.

Essa consciência não precisa ser sombria. Ela pode, ao contrário, nos ensinar a viver com mais verdade. Quando entendemos que a vida pode ser interrompida a qualquer momento, aprendemos a valorizar o instante, a suavizar as pressas inúteis, a cuidar melhor das pessoas e de nós mesmos. A imortalidade que imaginávamos possuir se desfaz, mas, em troca, ganhamos profundidade.

No fim, talvez seja isso que reste: aceitar a brevidade da existência como parte da sua beleza. Como escreveu Fernando Pessoa, com a lucidez de quem compreendeu o tempo e a fragilidade humana: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.” E é justamente quando reconhecemos nossa mortalidade que a alma, paradoxalmente, cresce.