Por: Prof. Márcio Pires da Silva
Ao analisarmos a evolução demográfica e social do Brasil nas últimas décadas, é inegável que o país acumulou conquistas estruturais significativas. Se voltarmos os olhos para os anos 1970 e 1980, o Brasil sobrevivia sob o peso de indicadores típicos de um "Terceiro Mundo" subdesenvolvido: a expectativa de vida ao nascer na década de 1970 orbitava a precária média de 57 anos, e a taxa de mortalidade infantil dizimava dezenas de crianças a cada mil nascidos vivos, impulsionada por epidemias de desidratação, desnutrição e ausência quase absoluta de saneamento básico no interior. Com a universalização da saúde pública pelo SUS a partir de 1988, a expansão das redes de vacinação e a melhoria na infraestrutura urbana, as médias nacionais saltaram de forma robusta, aproximando o país dos índices de longevidade globais.
Contudo, a publicação da reportagem "Diferença na expectativa de vida supera 14 anos no Brasil; veja em seu estado" (Folha de S.Paulo, 2026) funciona como um doloroso choque de realidade. Os números agregados e as médias nacionais otimistas, que muitas vezes celebram o envelhecimento recorde da população e a aproximação dos padrões do "Primeiro Mundo", servem apenas para camuflar um abismo interno. O estudo conduzido pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o Cedeplar/UFMG revela que o Brasil não avançou de forma homogênea: coexistem no mesmo território nacional ilhas de desenvolvimento europeu e bolsões de miséria e violência que nos retêm, em parte, no atraso do século passado.
A disparidade máxima identificada pela pesquisa expõe essa fratura: enquanto uma mulher branca residente em Santa Catarina possui uma expectativa de vida média de 80,9 anos — patamar equivalente ao de nações desenvolvidas da Europa —, um homem negro nascido em Alagoas tem uma estimativa de vida de apenas 66,7 anos. Estamos diante de uma distância brutal de 14,2 anos que separa o topo e a base da nossa pirâmide social. Três pilares sustentam esse abismo demográfico: "as diferenças de gênero, que respondem por 56% do intervalo; as desigualdades raciais, que representam 23%; e as disparidades regionais, responsáveis por 21% da variação".
Quando nos deslocamos para os rincões de pobreza pelo interior, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, as deficiências estruturais que caracterizavam o Brasil dos anos 1970 e 1980 continuam operando de forma perversa na redução do tempo de vida dos cidadãos. Conforme explica o professor de demografia Cássio Turra, as assimetrias regionais na longevidade são alimentadas por "redes de saneamento deficitárias, maiores distâncias entre centros com atendimento médico emergencial e de ponta... mais emprego informal e menos recursos entre a população para que possa adquirir planos privados de saúde". Essa falta de acesso a serviços básicos de saúde e infraestrutura pune severamente o público feminino negro e periférico, cuja perda de expectativa de vida está atrelada à maior incidência de doenças cardiovasculares, respiratórias e neoplasias não tratadas a tempo na faixa dos 35 aos 59 anos.
Por outro lado, o fator que mais abrevia a existência da população masculina nas periferias e interiores não é biológico, mas social: a violência civil. O cruzamento de dados feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) aponta uma estatística alarmante de violência endêmica: entre as vítimas de homicídios no Brasil, 91% são homens, 79% são negros e quase metade tem idade até 29 anos. Como destaca a coordenadora técnica Juliana Brandão, "o fato de ser negro aumenta em três vezes a chance de ser assassinado em relação à população branca". Essa sobremortalidade por causas externas retira de forma violenta a juventude do interior e das periferias, gerando uma distorção demográfica onde "quase metade da diferença de longevidade entre brancos e negros deve-se a causas externas, especialmente homicídios". Se essa violência generalizada fosse neutralizada, a expectativa de vida dos homens negros ganharia imediatamente três anos de vida.
Em suma, responder à questão se "ainda somos Terceiro Mundo" exige abandonar as ilusões estatísticas das médias nacionais, que servem apenas para ocultar a desigualdade. O Brasil melhorou em relação ao cenário desolador dos anos 1970 e 1980, mas a persistência de um hiato de 14 anos na sobrevivência de seus cidadãos prova que a cidadania plena e o direito de envelhecer com dignidade ainda são condicionados pela cor da pele, pelo gênero e pelo CEP de nascimento. Romper essa barreira colonial exige que o Estado direcione políticas públicas de proteção social, infraestrutura e saúde com precisão cirúrgica para as populações mais vulneráveis, sob a pena de continuarmos sendo um país rico que abriga, em suas entranhas, realidades de profunda exclusão.
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