quarta-feira, 17 de maio de 2023

A pandemia de covid-19 refletiu negativamente nos índices da educação no Brasil

 A pandemia de covid-19 refletiu negativamente nos índices da educação no Brasil, como mostraram os resultados do último Saeb, o Sistema de Avaliação da Educação Básica, aplicado nos meses de novembro e dezembro de 2021. Os resultados ameaçam conquistas e avanços importantes que o Brasil teve na última década – os dados apontam que a aprendizagem de crianças e adolescentes regrediu a patamares encontrados em 2015 em algumas séries. Por isso, neste ano de 2023, é preciso pensar em estratégias nacionais que caminhem para uma política efetiva de recomposição das aprendizagens.

Os dados do Saeb, um dos principais instrumentos de monitoramento da educação básica, apontaram que a média em leitura e escrita para os alunos do 2.º ano do ensino fundamental despencou 24 pontos, indo de 750, em 2019, para 726, em 2021. Em Matemática, a queda foi de 9 pontos, para 741.

No 5.º ano, as médias de Língua Portuguesa e as de Matemática (quedas de 6,6 e de 11 pontos, respectivamente) regrediram aos valores de 2015, assim como o resultado dos alunos do 9.º ano em Matemática, com um declínio de 6,7 pontos. Em Português, os alunos do último ano do ensino fundamental voltaram aos índices encontrados em 2017, caindo 2,2 pontos.

As quedas refletem os desafios que o ensino a distância trouxe para a educação. Mesmo com todos os esforços de secretarias, professores e famílias, as aprendizagens prioritárias não foram garantidas, especialmente na primeira etapa do fundamental, fase de alfabetização que exige suporte maior de escola e professores. E, sem recompor o que foi perdido nos anos anteriores, crianças e jovens não conseguem avançar como deveriam, pois lhes faltam habilidades que são prioritárias para poderem seguir aprendendo. Sem saber efetuar operações simples de soma e subtração, dificilmente é possível trabalhar com potenciação de frações, por exemplo.

Na escola, o trabalho de recomposição das aprendizagens deve iniciar com uma avaliação diagnóstica, identificando quais aprendizagens não foram consolidadas e estabelecendo, a partir delas, o planejamento pedagógico. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e os novos currículos devem servir de referência neste processo, ajudando professores e gestores a identificarem conhecimentos, habilidades e competências a serem desenvolvidos, a partir de um desenho nítido da progressão das aprendizagens. Os currículos devem ser repensados, para contemplar as lacunas de aprendizagens considerando os próximos anos. E pode ser necessário, ainda, oferecer um suporte extra aos estudantes, com ações de reforço, aceleração e acompanhamento individualizado, que podem ocorrer no contraturno ou por meio de recursos tecnológicos.

No entanto, é importante que as iniciativas dos professores para a recomposição das aprendizagens não sejam ações isoladas, mas integradas a uma estratégia. É preciso que os docentes sejam apoiados pelas escolas e secretarias e que a atuação deles seja um desdobramento de um plano maior, efetivo, que contemple as deficiências de aprendizagens de cada escola, de cada turma e de cada estudante. Tecnicamente, é um desafio e tanto para as redes.

Por isso é imperativo instaurar um grande debate que coloque em pauta estratégias para a recomposição das aprendizagens como prioridade para a educação em nível nacional, movimento que cabe ao governo federal. Recai também sobre o Executivo proporcionar recursos técnicos e financeiros para as redes, de forma que os estudantes mais vulneráveis e, consequentemente, mais impactados pelo fechamento das escolas recebam mais apoio.

Cabe ao governo federal, ainda, fortalecer políticas que ajudem a consolidar as aprendizagens propostas na BNCC e nos novos currículos. Entre elas, o aprimoramento do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) e o investimento contínuo na formação de professores. Além disso, assim como as avaliações locais devem ser repensadas, as nacionais, como o Saeb e o Enem, também devem sofrer mudanças para estarem alinhadas à BNCC e às diretrizes do Novo Ensino Médio.

Sabe-se que a recuperação das aprendizagens não será imediata. É uma tarefa que, com certeza, acompanhará todo o tempo de mandato do novo governo, estendendo-se ao menos até 2026. Neste período, será preciso manter um esforço contínuo e consistente para permitir que os estudantes avancem na escolarização e desenvolvam conhecimentos e habilidades imprescindíveis para a vida – tanto em nível pessoal quanto acadêmico e profissional.

A recomposição de aprendizagens demanda foco, planejamento de longo prazo, alinhamento à BNCC e garantia de recursos técnicos e financeiros às redes. E implica estabelecer um monitoramento efetivo, com avaliações e diagnósticos constantes. É um processo desafiador, porém necessário. Somente garantindo a crianças e jovens as aprendizagens é que evitaremos que as lacunas deixadas nos últimos anos se tornem grandes abismos para o avanço na educação.

domingo, 15 de janeiro de 2023

O homem autêntico se ama como é e não como gostaria de ser visto.

 Um dos caprichos da Humanidade é ver cada qual o mal alheio antes do próprio. Por que

condenar nos outros o que desculpamos em nós? Antes de criticar alguém, consideremos se

a própria reprovação não nos pode ser aplicada. Ouando criticais, que dedução se pode

tirar das vossas palavras? A de que vós, que censurais, não praticastes o que condenais, e

valeis mais que o culpado (ESE, Cap. X item 16). Se nos julgamos superiores àquele que

criticamos é porque ainda somos movidos pelo orgulho, pelo amor-próprio. Eis no fundo o

móvel de nossas palavras. Comprazemo-nos na eventual supremacia de nossas qualidades,

satisfazemo-nos com o capricho do EU SUPERIOR. Ao invés de uma postura

espiritualizada que visa o bem sincero do próximo, estamos antes satisfazendo o nosso

próprio ego. O homem autêntico se ama como é e não como gostaria de ser visto. É isso

que distingue o amor a si do amor-próprio.

Não julgueis para não serdes julgados. (Mt., 7:1)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

A INTOLERÂNCIA

O verdadeiro caráter da caridade é a modéstia e a humildade, e consiste em não se ver

superficialmente os defeitos alheios, mas em se procurar salientar o que há de bom e

virtuoso no próximo. (E.S.E, Cap. XVIII item 18)

Precisamos romper em nós as algemas do apego à imagem que idealizamos com relação

ao mundo e às pessoas. Não podemos pretender exigir de outrem aquilo que ele não pode

nos oferecer. Importa aceitar e respeitar as criaturas mesmo dentro de suas limitações,

mesmo quando corrompidas, criminosas ou viciadas. O amor universal a que a verdadeira

caridade nos convida, consiste em vivenciar o amor em si mesmo, independente de

preconceitos ou discriminações.

Aquele que só é justo com os bons, generoso com os pródigos, misericordioso com os

mansos, não é nem justo, nem generoso, nem misericordioso. Tampouco é tolerante aquele

que só o é com as pessoas boas. Se a tolerância é uma virtude, ela vale por si mesma, e

sobretudo para com as pessoas mais difíceis. Virtude que discrimina, não o é.

Tolerar consiste em não exigir; compreender e respeitar as condições ou limitações das

pessoas. Mais do que isso, tolerar não é suportar, mas encarar a todos com o pressuposto

de que possuem uma essência espiritual, e enquanto tal são necessariamente dotadas de

bons sentimentos, e com infinitas potencialidades latentes a serem manifestas.

Ser tolerante consiste, portanto, em eliminar a intransigência em nossas análises críticas

em relação ao próximo; evitar comentários desairosos; afastar sentimentos de mágoa ou

inconformação por algo contrário à nossa vontade.

Sede indulgentes, meus amigos, porque a indulgência atrai, acalma, corrige, enquanto o

rigor desalenta, afasta e irrita. (ESE., Cap. X, item 16).

domingo, 25 de dezembro de 2022

O DESPRENDIMENTO

Geralmente o homem possui uma preocupação excessiva com os bens materiais, enquanto

dá pouca importância ao aperfeiçoamento moral, o único que será levado em conta na

eternidade. Há bens infinitamente mais preciosos que os do mundo, e esse pensamento

deve nos ajudar a nos desprender deles. Quanto menos importância dermos às coisas do

mundo, menos sensíveis seremos à inveja e menos sofreremos pela nossa condição.

O homem só é infeliz, geralmente, pela importância que liga as coisas deste mundo. A

vaidade, a ambição e a cupidez fracassada o fazem infeliz. Se ele se elevar acima do

círculo estreito da vida material se elevar seu pensamento ao infinito, que é o seu destino,

as vicissitudes da Humanidade lhe parecerão mesquinhas e pueris ( ... ) (L.E., 933)

Não se trata de não desfrutar das coisas do mundo. É próprio do homem sábio usar as

coisas e ter nisso a maior alegria possível. O que importa é não depender, não apegar-se

às coisas mundanas, ou seja, permanecer senhor de seus sentimentos, em vez de escravo.

Importa, portanto, querermos ser mais puros, por ser mais livres; mais alegres porque

mais controlados; mais serenos porque menos dependentes. Se não tivermos muito,

contentemo-nos com pouco, persuadidos de que os que menos necessitam da abundância,

desfrutam-na com maior prazer. Em uma sociedade simples, o pão e a água não faltam

quase nunca, mas na sociedade rica, o ouro e o luxo sempre faltam. Como ser felizes, uma

vez que somos insatisfeitos? Na verdade, não é o ter pouco que importa, é o poder interior,

o contentamento; isto é uma virtude.

Que virtude mais feliz e mais humilde, que graça mais necessária do que a de sentir-se

feliz pelo que se é e pelo que se tem, ou seja, ser grato. A força do amor-próprio, no

entanto, está na raiz do apego. Ao supervalorizarmos os bens mundanos, estamos

vivenciando o amor a si, ao passo que na alegria sentida por tudo que o outro é e possui,

está o amor ao próximo, e no reconhecimento por tudo que somos e possuímos, está o

amor a Deus.

Portanto, a inveja e o carecer deslustram o amor, ao passo que apenas o sentimento de

gratidão pode nutrir nosso impulso feliz de generosidade - não uma gratidão afetiva

apenas, mas uma gratidão ativa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

A INDISCIPLINA E O TDAH NA ESCOLA

 

Para Araújo (2004), o TDAH é frequentemente considerado, erroneamente, como um tipo específico de problema de aprendizagem. Sabe-se que as crianças com TDAH são capazes de aprender, mas possuem dificuldades em virtude do impacto que os sintomas provocam. Na escola, as crianças com TDAH podem apresentar, em geral, inteligência média ou acima da média. Porém, demonstram alguns problemas na aprendizagem ou no comportamento, relacionados a desvios das funções do sistema nervoso central, promovendo dificuldades na percepção, conceitualização, linguagem, memória, controle da atenção, motricidade e impulsividade.

Alunos com dificuldades de concentração, com hiperatividade ou indisciplinados, exigem uma maior atenção por parte dos educadores, pois tendem a apresentar uma demora para aprender. Segundo Mattos (2005), é durante o período escolar que aparecem as manifestações mais evidentes da hiperatividade. A criança pode não conseguir aprender a ler na mesma velocidade que as outras, possui dificuldades de abstração e apresenta problemas em tarefas que requerem coordenação visomotora, sua escrita, cópia e desenhos nem sempre são adequados e se apresentam com problemas perceptivo-motores. Na escola, é importante que o TDAH não seja confundido com indisciplina e que o aluno seja auxiliado, e não punido.

Para Machado e Cezar (2008), professores de alunos que exibem problemas de hiperatividade necessitam ter paciência e disponibilidade, pois eles precisam de muita atenção. A criança hiperativa comumente tem baixa autoestima pelo fato de apresentar dificuldades na concentração. É indispensável desenvolver um repertório de intervenções para atuar com eficácia no ambiente da sala de aula com a criança portadora de TDAH. As crianças com TDAH podem permanecer na classe normal com pequenos ajustes na sala, como a utilização de um auxiliar ou programas especiais a serem usados didaticamente na sala de aula. Uma sala de aula para crianças desatentas deve ser organizada e estruturada. Os professores devem ter conhecimento e aprender a discernir sobre o transtorno e inserir socialmente o aluno diagnosticado com o TDAH em sala de aula, de forma inclusiva.

Freitas (2011) reforça que, além das dificuldades apresentadas pelos portadores do TDAH no processo de aprendizagem, estes possuem, também, muitas características positivas, dentre elas: bom nível intelectual, criatividade aguçada, sensibilidade e outras. Também é preciso advertir que, para estes alunos conseguirem manter a atenção, é necessário que o assunto, conteúdo, tarefa ou atividade seja interessante e estimulante para eles, e que o aluno com TDAH merece e tem seu direito de desenvolver todas as suas potencialidades e inserir-se socialmente assegurado por lei. Ainda segundo o autor, após o diagnóstico, faz-se indispensável a adoção de medidas que promovam um novo direcionamento para a educação do aluno em todos os ambientes de convívio social do mesmo. Neste caso, indica-se um acompanhamento interdisciplinar, com o acompanhamento dos médicos e do psicopedagogo, na busca de estratégias para melhor aproveitamento da aprendizagem, de acordo com as necessidades demonstradas pelo paciente, em conjunto com a equipe interdisciplinar, família e escola.

O aluno com suspeita de TDAH é aquele que, por comportamentos e sintomas de desatenção, inquietação ou impulsividade, possui dificuldade para permanecer quieto, para permanecer sentado, quase sempre mexendo as mãos e pés de forma desesperada, corre pela sala e se mantém agitado, faz intromissões desconexas ao assunto e andamento da aula (HENNIG; FORLIN, 2016).

Uma afirmação muito comum entre os professores é que os alunos são na escola o que trazem de casa. No contexto da sala de aula, Freller (2001) cita que a indisciplina ocorre como uma insatisfação por parte dos alunos.

É necessário saber ouvir e compreender a mensagem que se esconde através do comportamento manifestado na indisciplina. Para Santos (2020), crianças apresentam comportamento reativo e condizente com a postura e preocupação do professor em sala de aula. O autor expõe que brigas, discussões, bagunças, falar alto, imitar animais, são exemplos de comportamentos de alunos que apresentam indisciplina em sala de aula. Logo, a indisciplina em sala de aula se manifesta através da quebra de regras e preceitos. O estágio cognitivo do aluno não deve motivar a indisciplina em sala de aula.

Para não avaliar de maneira errônea o comportamento dos alunos, o professor precisa compreender que o aluno com um comportamento considerado como normal é aquele que apresenta um comportamento esperado para a turma, e que o aluno indisciplinado é aquele que, com motivação ou não pelo professor ou pela escola, não obedece às regras e às normas e é comumente desobediente diante do coletivo. Nesse caso, o autor afirma que um aluno que se distancia do comportamento da maioria o faz para chamar a atenção (GIRAFFA, 2013).

Nesse sentido, Junior (2021) complementa que o professor necessita ser capaz de motivar as capacidades e potencialidades dos seus alunos, incentivar seus interesses pelos estudos e aprimorá-los com qualidades humanísticas e intelectuais. Deve conhecer os alunos sob a ótica que os envolvem, podendo discernir o que é um aluno com comportamento indisciplinado e um aluno com diagnóstico de TDAH; conhecer o aluno singularmente, sob as condições ambientais e familiares que o circundam; deve ter um conhecimento amplo ao relacionar o processo de ensino e aprendizagem dos alunos e possuir meios de identificar e conhecer melhor o seu aluno.

Deve, o professor, considerar o aluno como único em uma turma heterogênea, ponderando que cada aluno deve ser visto como um ser único, com comportamentos próprios e condicionados a condições ambientais e genéticas. Não pode ser julgado como de comportamento anormal dentro do contexto de uma turma heterogênea, com relação a indícios de TDAH, tomando-se em consideração que o professor deve julgar o comportamento de seus alunos sob uma visão sistêmica, de distinção entre comportamentos indisciplinados e comportamentos com diagnóstico médico atestando TDAH (GONÇALVES; VOLK, 2016).

TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE (TDAH)

 

O TDAH é um transtorno do desenvolvimento do autocontrole que atinge a atenção, o controle de impulsos e o nível de atividade. Socialmente, essas crianças, muitas vezes, são compreendidas como indisciplinadas pela própria dificuldade de atentar e de seguir regras. (JOU et al., 2010).

Segundo Araujo e Santos (2003), o TDAH é avaliado, também, como um distúrbio biopsicossocial, no qual podem ocorrer fortes fatores genéticos, biológicos, sociais e vivenciais que cooperam para a ativação desse problema.

Para Mattos (2013), o TDAH é um transtorno neurobiológico, com grande participação genética, que tem início na infância e pode persistir na vida adulta, comprometendo o funcionamento da pessoa em vários setores de sua vida, e se caracteriza por três grupos de alterações: hiperatividade, impulsividade e desatenção.

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) caracteriza-se pela combinação dos sintomas de déficit de atenção, hiperatividade e impulsividade (ALVES, 2014).

De acordo com Santos e Vasconcelos (2010), o TDAH pode ser caracterizado por padrões comportamentais de desatenção, como cometer erros por descuido em atividades escolares, especialmente aquelas que demandam um maior esforço. Muitas vezes, também parecem não escutar o que lhes foi dito ou dão impressão de estarem com o pensamento em outro lugar.

A complexa aprendizagem na escola afronta a hiperatividade: se a criança não progride em suas tarefas, fica desmotivada e com a sua autoestima abalada, sentindo frustração (ARAUJO; SANTOS, 2003).

Para Bastos, Thompson e Martinez (2000), esse distúrbio é de origem genética, e é ocasionado pela insuficiente produção de catecolaminas (adrenalina e noradrenalina), que é uma classe de neurotransmissores responsável pelo domínio de diversos sistemas neurais, abarcando aqueles que conduzem a atenção, a conduta motora e a estimulação.

Diversas suposições esclarecem as causas da hiperatividade. Lopes, Nascimento e Bandeira (2005) alegam que esses desenhos estruturais e metabólicos, somados a estudos genéticos, bem como à pesquisa sobre a reação às drogas, confirmam que o TDAH é um transtorno neurobiológico. Mesmo diante da intensidade dos problemas conhecidos pelos portadores alterarem de acordo com suas experiências de vida, tem como fator categórico a genética.

Para Rohde et al. (2004), a hiperatividade ocorre mais na população masculina. O motivo da altercação na proporção de meninos e meninas, de acordo com os estudos, é que as meninas tendem a apresentar o TDAH com preponderância para os sintomas de desatenção.

A Associação Americana de Psiquiatria utiliza oficialmente o DSM IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), que apresenta os sintomas que diferenciam os tipos de TDAH e a constância com que eles devem abrolhar para que se possa determinar a existência ou não do transtorno. De acordo com o DSM IV:

  • Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade tipo combinado: a maioria das crianças e adolescentes com o transtorno tem o tipo combinado.
  • Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade tipo predominantemente desatento: a hiperatividade pode ainda ser uma característica clínica importante em muitos casos, enquanto outros são mais puramente de desatenção.
  • Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade tipo predominantemente hiperativo-impulsivo: a desatenção pode, com frequência, ser uma característica clínica importante nesses casos (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2002).

Segundo Schwartzman (2001), a identificação do diagnóstico funcional e sindrômico podem indicar, também, a conhecer condições neurológicas progressivas que podem aparecer, inicialmente, de modo sutil, por vezes, por meio de um distúrbio do comportamento e/ou da aprendizagem escolar. Por outro lado, cabe ao médico neurologista a prescrição de medicações que poderão, em certas ocasiões, ser benéficas aos alunos, aprimorando, inclusive, a aprendizagem e/ou melhorando problemas comportamentais presentes e que podem influenciar na sua atividade escolar.

Para Araújo e Santos (2003), a parceria com a escola permitirá que eventuais melhoras e/ou possíveis pioras possam ser identificadas nas salas de aula e debatidas com o médico.

Segundo Luizão e Scicchitano (2014), uma vez examinado o problema, se faz indispensável o trabalho multidisciplinar envolvendo pais, professores e terapeutas. Estes devem realizar um plano quanto às metodologias e intervenções que serão praticadas para o atendimento desse aluno. Tais estratégias englobam: mudança do ambiente, adaptação do currículo escolar, flexibilidade na realização e apresentação de tarefas, adequação do tempo de atividade, administração e acompanhamento de medicação.

A maneira mais aconselhável de se investigar o TDAH é por meio do trabalho em equipe, que engloba tanto abordagens individuais com o portador como medicação, acompanhamento psicológico, terapias específicas, técnicas pedagógicas apropriadas e estratégias para as outras as pessoas conviventes dele, como terapia para a família, explicação sobre o assunto para pais e professores com um treinamento com profissionais especializados (GOLDSTEIN; GOLDSTEIN, 1994).

Para que uma criança ou jovem com TDAH tenha a capacidade de aumentar a sua potencialidade e caminhar pela vida de maneira apropriada e gratificante, é imprescindível que as pessoas abrangidas no processo de acompanhamento mantenham estreita comunicação e forte colaboração (SMITH, STRICK, 2001).

Araújo e Santos (2003) afirmam que, no tratamento do TDAH, são utilizados medicamentos psicoestimulantes, os quais proporcionam uma resposta positiva em 70% a 80% das crianças e adultos. Em alguns casos de tratamento da hiperatividade, que inclui a psicoterapia, faz-se o uso de antidepressivos (psicotrópicos) por alguns médicos.

Foi ressaltada pela medicina que, para o tratamento do TDAH, aconselha-se o uso de medicamentos excitantes, como a anfetamina, que acalma o comportamento hiperativo da criança, porém, provoca alguns efeitos colaterais graves, como a hipertensão, hepatite ou perda de apetite. Outro medicamento usado é o cloridrato de metilfenidato, sendo o mais utilizado pelos médicos, e, na psiquiatria infantil, é a substância mais estudada, mas também apresenta efeitos colaterais, como falta de apetite, insônia e retardo no crescimento corporal (DIAS; BADIN, 2015).

Em casos considerados leves, o TDAH pode ser cuidado apenas com terapia e reorientação pedagógica, afirmam Andrade e Scheuer (2004), e os casos graves necessitam de tratamento com medicamentos. O tratamento é feito por um período mínimo de dois anos, mas aconselha-se ir até a adolescência, quando os sintomas diminuem ou desaparecem, devido ao amadurecimento do cérebro, que equilibra a produção da dopamina. Dessa forma, grande parte da responsabilidade do resultado e das atividades da criança recai sobre os pais, professores e outros adultos que convivem com a criança. Recomenda-se que a família também receba orientação psicológica. Para o autor, um número pequeno de crianças consegue superar sem tratamento parte do problema da hiperatividade.

A hiperatividade é comumente analisada em um conjunto de comportamentos que incluem certa inadequação. Para Desidério e Miyazaki (2007), os sintomas da indisciplina e da hiperatividade são semelhantes, mas há distinções comportamentais que diferenciam a hiperatividade. A criança portadora do TDAH demonstra com mais exatidão as características do transtorno em idade escolar, pois é nesse ambiente que ela demonstrará as características que definem o TDAH. As dificuldades na escola não surgem só pela falta de atenção, mas também por distúrbios viso-perceptivos.

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

PARA OS QUE VIRÃO

 de Thiago de Mello (...)

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular – foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
— muito mais sofridamente —
na primeira e profunda pessoa
do plural.
Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.
É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros)
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

O que os pais devem esperar das escolas nesse momento?

O que os pais devem esperar das escolas nesse momento? Primeiramente, que elas não façam de conta que nada aconteceu nesse longo período. Muitas mães e pais têm reclamado disso. Algumas escolas têm exagerado na transmissão dos conteúdos escolares e na pressão aos alunos porque buscam diminuir o prejuízo do atraso ocorrido.

Acontece que crianças e adolescentes não são os mesmos de quando as escolas fecharam. Passaram por muitas situações dolorosas e manifestam – ou manifestarão – reações emocionais e físicas que podem durar muito tempo: meses e até anos.

Uma mãe de dois garotos foi orientada pela escola a procurar um profissional para os filhos porque eles não estavam conseguindo se concentrar nas aulas.

Pois então: a falta de concentração pode ser consequência do chamado estresse pós-traumático.

As escolas devem estar preparadas, portanto, para trabalhar, simultaneamente, com a aprendizagem dos alunos, com sua adaptação a esse novo período, com a busca do convívio coletivo respeitoso e solidário, com o corpo dos alunos e com as reações emocionais que os alunos possam apresentar.

Parece muita coisa, mas a escola que faz a formação continuada de seus professores, apoia a docência diariamente, trabalha em equipe e planeja cuidadosamente seus trabalhos consegue dar conta dessa missão atual.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Daqui para a frente, será prioridade ensinar aos filhos a importância do autocuidado

Será que teremos de mudar algumas direções em nossas atitudes educativas com os filhos após esse longo período – que ainda não terminou – de pandemia?

Temos muito no que pensar sobre esse tema, mas já dá para colocar em prática o que muitos adultos, principalmente, aprenderam durante esse período. Daqui para a frente, será prioridade ensinar aos filhos a importância do autocuidado – que leva ao cuidado com o outro. Uma discussão atual – tomar ou não vacinas – nos lembra que não vivemos sozinhos.

Da família à escola, ao trabalho, à vida social em todos os seus aspectos, estamos sempre em grupos, o que requer cuidados. Como colaborar com a proteção coletiva?

Tomemos dois exemplos: o sarampo e a poliomielite. O sarampo já havia sido declarado erradicado no Brasil; porém, voltou a circular, acompanhando o baixo índice de vacinação. A poliomielite está considerada erradicada, mas o momento é preocupante: em 2019, uma pesquisa mostrou que só metade da população se vacinou contra essa doença.

Percebe que podemos, com o autocuidado, promover o cuidado com o outro? E o cuidado tem a ver não só com a saúde e o bem-estar, mas também com a vida boa e respeitosa. Sempre é bom lembrar que, quando o grupo (familiar, social) vive bem, nossa vida pessoal fica melhor.

Os pais, quando cuidam das crianças pequenas, estão, indiretamente, ensinando o cuidado de si. Mas, a partir dos 6, 7 anos, é importante ensinar diretamente. Mostrar ao filho que ele arca com alguma consequência ruim por não ter avaliado os riscos de determinada atitude antes de tomá-la é um bom exemplo. Quanto aos adolescentes, é mais importante que eles já saibam o básico, mas continuem aprendendo como cuidar bem de si. Nessa fase da vida, há muitas tentações, e eles têm de pensar que, antes de ceder a essas iscas, precisam saber dos riscos que elas podem conter.

Outro tema que deverá nortear de agora em diante a educação dos filhos é a construção do processo de autonomia. Após quase dois anos apegados aos pais, será necessário incentivar o caminhar com as próprias pernas, sempre conforme a etapa vivida no momento. Como fazer? De início, tomando uma atitude simples: não fazer nada pelo filho que ele já possa fazer por si mesmo. Aliás, você se deu conta de quantas coisas faz por ele que deveriam ser da conta dele? Por que fazemos isso? Por quê?

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A aproximação das atividades escolares com as práticas sociais dos alunos pode ser um caminho emancipatório para o ensino.

Vivemos numa sociedade grafocêntrica. A leitura e a escrita permeiam as interações humanas. Entretanto, na escola, ainda enfrentamos dificuldades no desenvolvimento de atividades que promovam não apenas o aprendizado sobre a linguagem, mas também a conscientização dos alunos a respeito da importância e da centralidade da escrita e da leitura na sociedade.

Pensar a linguagem como prática social é, portanto, repensar o ensino. Infelizmente, a concepção sócio-histórica de escrita, voltada às práticas sociais, nem sempre está presente no dia a dia da sala de aula.

A realidade das escolas públicas tem demonstrado que ainda há um longo caminho entre o que se espera do ensino e o que, de forma geral, tem-se realizado com os alunos.

Uma característica comum tem sido o distanciamento entre as práticas escolares e as práticas sociais, como se escola e sociedade fossem instâncias separadas, e não, na verdade, complementares.

Esse artificialismo no trabalho com a linguagem pouco tem contribuído para que os alunos se tornem, efetivamente, leitores e escritores. Ou seja, que consigam se apropriar, de forma crítica, de novos conhecimentos, imperativos às mudanças sociais e ao processo de transformação de uma sociedade com tantas injustiças.

O que se tem feito em sala de aula parece ter um fim em si mesmo. Após mais de uma década de ensino básico, muitos alunos estão despreparados para utilizarem a leitura e a escrita como ferramentas e para responderem às novas demandas do uso da linguagem nos mais diversos contextos.

Esse problema – o inadequado processo de escolarização na modalidade escrita e a artificialização da produção dos alunos – tem se tornado um obstáculo para uma aprendizagem significativa.

Tal situação faz parte do cotidiano escolar. A insatisfação com a prática docente deve se mostrar uma oportunidade para a busca de teorias que possam colaborar com a ressignificação do trabalho docente como um todo.

Isso se explica pelo fato de que a aproximação das atividades escolares
com as práticas sociais dos alunos pode ser um caminho emancipatório para o ensino.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

O que podemos fazer por professores para que eles tenham o que comemorar no dia 15 de outubro?

A sensação de solidão dos professores surgiu agora, na pandemia? Não! É de bem antes. Só ficou agudizada quando eles receberam a responsabilidade de ensinar crianças e de se relacionar com sua classes mediados por uma tela. Foi um sufoco!

Como segurar a atenção dos alunos em aulas virtuais, onde gravar conteúdos específicos, que metodologias usar, onde encontrar os equipamentos necessários e uma internet mais veloz, etc, etc, etc. Foram questões que colaboraram muito para que a condição de solidão docente ficasse cada vez mais forte.

Mas o professor já se sentia terrivelmente só ao perceber que faz parte de uma categoria que costuma ser excluída da sociedade. Não valorizamos seu trabalho, não lutamos por políticas públicas que ofereçam condições dignas de trabalho a eles, não damos importância ao exercício árduo e diário que eles praticam. Não clamamos por investimentos na formação deles, não agradecemos o que fazem por nossa sociedade.

O que podemos fazer por professores para que eles tenham o que comemorar no dia 15 de outubro? Podemos começar por respeitá-los. Criança precisa ter um tempo presente e não apenas um futuro; professor precisa ter o reconhecimento social de seu trabalho.

Precisamos ouvir crianças e professores. Eles podem nos apontar os nortes que devemos seguir para que possamos oferecer melhores condições de infância e de trabalho a eles.

Precisamos exigir de nossos governantes que realizem investimentos na infância e no trabalho docente. Quem sabe assim possamos, sem hipocrisias sociais.

domingo, 10 de outubro de 2021

Todos sentimos na pele os efeitos da pandemia e do isolamento – e as crianças também.

Criança cresce e se desenvolve bem melhor com outras crianças. A escola, na atualidade, é o local em que as crianças encontram seus pares já que a vida pública, nas ruas, nas praças, diminuiu muito para elas. E, de repente, a escola fechou. A pandemia provocou o isolamento social de todos e, principalmente, de crianças.

Com as escolas fechadas, muitas foram as preocupações: falamos em ano perdido, em déficit de aprendizagem, perda de rotina. Pouco tempo depois, consideramos com intensidade a saúde mental afetada das crianças e adolescentes. Agora, estamos ocupados com a volta à escola e ao convívio das crianças e jovens com seus pares. E a dificuldade que muitos deles estão enfrentando tem chamado a atenção de pais e de professores.

Sem dúvida nenhuma, a maioria das crianças estava ávida por retornar – para brincar com os colegas, ter contato regular olho no olho com outros adultos que não os da família. Mas não tem sido fácil para os mais novos, mesmo com todos os benefícios percebidos.

Algumas crianças têm apresentado reações físicas intensas ao ir para a escola e nem conseguem sair do carro ao lá chegar. Outras insistem que aprendem mais e melhor com as aulas remotas... Vamos, antes de tudo, entender o contexto de vida atual dessas crianças. Todos sentimos na pele os efeitos da pandemia e do isolamento – e as crianças também. Elas foram, por um longo período, privadas do contato corporal com avós, tias e tios, primos, amigos da família – e sofreram com isso. E como elas comunicaram esse sofrimento? Quase sempre com sinais evidentes.

Crianças que já haviam conquistado a autonomia possível em relação aos pais passaram a se mostrar dependentes deles; distúrbios do sono e mudanças no estilo alimentar foram frequentes; dificuldades para focar a atenção e pesadelos marcaram presença.

Muitos adultos esperavam que, com o retorno das aulas, as dificuldades infantis ficariam amenizadas, Para muitas crianças isso de fato aconteceu. Mas não para esse grupo que está congelado nos medos, nas inseguranças.

O que fazer? O ato de a criança brincar é capaz de realizar verdadeiras mágicas na vida dela. Mas não se trata só de oferecer brinquedos. Fomentar a autonomia do brincar: essa é a questão. Não, os pais não precisam separar períodos do dia para brincar com os filhos e, sim, devem possibilitar condições de tempo e espaço para que eles possam realizar sua criatividade e fantasias. Em tempo: amigos invisíveis podem ser ótimas companhias para as crianças pequenas.

Atividades do interesse de todos do grupo familiar, como dançar, ler, assistir a filmes ou até jogar videogame podem estimular a criança em sua afetividade, suas relações, sua resiliência. E fortalecer a resiliência dos mais novos é fundamental nessa hora. Escutar o que as crianças dizem é mais importante do que falar a elas. Sem escuta não há diálogo, senhores pais. É preciso superar a sensação de estar ouvindo bobagens infantis para descortinar um universo imenso de significados pessoais, pedidos sutis, questionamentos relevantes. E arte: muita arte para as famílias praticarem e apreciarem, é a melhor dica que posso dar. A arte pode nos salvar de nossos sentimentos confusos, de nossas dores, de nossa dura realidade.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Piso salarial de professores brasileiros é o mais baixo entre 40 países, diz estudo

 O piso salarial dos professores brasileiros nos anos finais do ensino fundamental é o mais baixo entre 40 países avaliados em um estudo da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado nesta quinta-feira, 16. Os rendimentos dos docentes brasileiros no início da carreira são menores do que os de professores em países como México, Colômbia e Chile.

De acordo com o relatório Education at a Glance 2021, os professores brasileiros têm salário inicial de 13,9 mil dólares anuais. Na Alemanha, por exemplo, o valor passa de 70 mil dólares. E é maior do que 20 mil dólares em países como Grécia, Colômbia e Chile. A conversão para comparação dos salários é feita usando a escala de paridade do poder de compra, que reflete o custo de vida nos países.

Em relação ao salário real, que inclui pagamentos adicionais, o valor médio recebido pelos brasileiros também está aquém da maioria dos países avaliados no relatório - só ultrapassa o que recebem os professores na Hungria e na Eslováquia. Os salários dependem de fatores como idade, nível de experiência e qualificação profissional.

No Brasil, segundo a OCDE, os salários reais médios dos professores são de 25.030 dólares anuais no nível pré-primário (que corresponde à educação infantil) e 25.366 dólares no nível primário (anos iniciais do ensino fundamental). Na média dos países da OCDE, os valores para as mesmas etapas são 40.707 dólares e 45.687 dólares, respectivamente.

 “Igualdade de oportunidades é um ingrediente chave para uma sociedade democrática forte e coesa. Diferentemente de políticas que podem combater as consequências, a educação pode atacar as raízes da desigualdade de oportunidades", disse nesta quinta-feira, 16, o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann. "Reforçar investimentos em uma educação melhor e mais relevante será fundamental para ajudar os países a oferecer prosperidade social e econômica de longo prazo", completou ele, durante o lançamento do relatório em Paris. 

Para a OCDE, o ambiente escolar influencia na decisão dos professores brasileiros de entrar e permanecer na profissão. “O tamanho das turmas diminuiu nos últimos anos no Brasil, mas os salários dos professores permanecem abaixo da média”, aponta o relatório.

Em relação ao tamanho das turmas, o estudo indica que o número de alunos nas salas tem caído de 2013 a 2019, passando de 23 para 20 estudantes nos anos iniciais do ensino fundamental - abaixo da média da OCDE (21).  Nos anos finais do fundamental, também houve queda, de 28 para 26, mas o número de alunos ainda é superior à média dos outros países (23).

 



https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,piso-salarial-de-professores-brasileiros-e-o-mais-baixo-da-ocde-aponta-estudo,70003841430

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

É raro encontrarmos adolescentes que não frequentem redes sociais no espaço virtual



Primeiramente, vamos pensar nos jovens dessa idade, um pouco menos, um pouco mais. Eles são considerados “nativos digitais” por já terem nascido e crescido em um mundo de cultura digital. Há pessoas de outras gerações que se naturalizaram nesse mundo, mesmo não tendo nascido nele.

É raro encontrarmos adolescentes que não frequentem redes sociais no espaço virtual, que não se divirtam com jogos virtuais e não tenham conhecido muitos de seus pares nesse espaço. Eles têm uma facilidade enorme para lidar com as ferramentas digitais disponíveis e as manuseiam com agilidade ímpar. Muitos adultos, por não terem essa facilidade, acreditam que pouco podem ajudar filhos e/ou alunos quando se trata de tecnologia.

Entretanto, os chamados nativos digitais podem não ter facilidade para lidar com as relações que acontecem nas redes virtuais por um motivo simples: eles estão apenas começando a adquirir experiência na vida povoada por seres com olhar mais adulto para o mundo e pouco se dedicaram a conhecer e explorar o mundo real para entender como ele funciona. E o mundo virtual, leitor, é ancorado no real, mostrando-se às vezes um pouco melhor do que este e, às vezes, um pouco pior. E esse pior é principalmente provocado pela falta da presença humana concreta nas conexões.

Quando jovens conversam entre si e praticam o que é chamado – mal chamado – de “brincadeiras de mau gosto”, eles podem observar a reação do outro. No espaço virtual, é como se não houvesse reação nenhuma, por isso eles usam e abusam de comentários agressivos e maldosos. Além de essa presença virtual não se concretizar há também a falsa ideia de que é bom ser franco. Mas eles não sabem distinguir franqueza de grosseria, ainda. Aliás, muitos adultos também não sabem.

Os relacionamentos interpessoais são delicados, complexos, exigem maturidade dos envolvidos. Maturidade que anda em falta em nosso mundo. Nós não queríamos, mas estamos construindo um mundo com crianças sem infância e adultos imaturos.

Mães e pais de adolescentes precisam bancar essa etapa de vida dos filhos. É preciso ser gente grande e ter coragem para aceitar o título de ser mãe ou pai careta. Afinal, é isso mesmo que somos aos olhos deles. E que devemos ser! Filhos adolescentes precisam de nossa presença firme, sensata. Precisamos cultivar a confiança deles para que aceitem nossa tutela, ainda necessária, principalmente no relacionamento deles com o mundo virtual.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

A criança pequena tem como se fosse uma antena que capta os sinais mais sutis de mudanças


O bebê, após o nascimento, sofre. Mesmo sendo muito bem cuidado. É que, em uma gestação regular, ele estava em um ambiente superprotegido, com a temperatura adequada e luminosidade e ruídos que só promoviam o seu bem-estar – a batida do coração da mãe, por exemplo. Após o nascimento, ele perde esse ambiente seguro e entra em outro com luzes, barulhos, sente fome, calor, frio, tem cólicas etc.

É por isso que o bebê chora, aparentemente sem motivo. Ele sente falta daquela segurança. Mas é bom saber que esse sofrimento passa com a adaptação e não deixa marcas que prejudicam o seu desenvolvimento.

Vamos pensar agora em alguns motivos que fazem uma criança pequena sofrer. Uma das sustentações da vida infantil é o vínculo afetivo que tem com os pais e/ou outros adultos que convivem amorosamente com ela e cuidam dela. Esse vínculo é tão intenso que leva a criança a facilmente perceber se há algo que preocupa essas pessoas.

Pois as preocupações, receios, dores e sofrimentos, decepções, tristezas, por exemplo, que acometem esses adultos, fazem a criança sofrer. Nem é preciso haver grandes demonstrações por parte do adulto desse sofrimento. A criança pequena tem como se fosse uma antena que capta os sinais mais sutis de mudanças e isso a faz sentir o sofrimento que ela nem entende.

Na atualidade, com a pandemia e o grande número de mortos, quase a totalidade dos adultos está em luto ou preocupada. E isso afeta até a criança: ela sente o estado de insegurança e tristeza por identificação com os adultos que a cercam.

Até os 3 anos, mais ou menos, quase todos os cuidados com a criança se concentram na saúde física. O pediatra, as vacinas, a amamentação, o sono, o desenvolvimento corporal etc. Quando acontece de a criança adoecer, os tratamentos são focados na doença física. Poucos profissionais têm preparo e cuidado em observar sinais da saúde mental da criança nessa idade. Mas seria preciso e precioso que houvesse esse tipo de atenção porque, desse modo, muitos quadros sérios poderiam ser evitados mais tarde.

Que sinais podem apontar sofrimento psíquico na criança? A organização corporal, o tipo de aconchego físico e de comunicação que a criança tem com o adulto, o choro e as vocalizações e o olhar são alguns exemplos.

No contexto atual, tristezas, choro sem motivo aparente, perturbação do sono e da alimentação, irritação frequente e inibição fazem parte do quadro de estresse pela falta da escola e pela pandemia. Mesmo assim, merecem atenção dos responsáveis.

sábado, 12 de junho de 2021

Os pais enfrentaram, e ainda irão enfrentar por um bom tempo, situações difíceis com os filhos nesta época de pandemia.

Os pais enfrentaram, e ainda irão enfrentar por um bom tempo, situações difíceis com os filhos nesta época de pandemia. Se, antes de as escolas fecharem, muitas mães chegaram a dizer “Eu já fiz de tudo” ao se referirem a comportamentos ou reações dos filhos, hoje elas reconhecem que já inventaram soluções e estratégias inimagináveis anteriormente. E podem - e terão - de criar outras mais, ainda. As preocupações, angústias, inseguranças e dúvidas - muitas dúvidas - habitam hoje a cabeça dos pais.

Para alguns, uma pequena mudança de comportamento do filho já sinaliza algum possível problema; para outros, o atraso na aprendizagem em mais de um ano sem escola presencial é um tormento para o qual não encontram soluções que considerem produtivas. A saúde física e mental dos filhos é mais um motivo para sustentar o sinal amarelo piscando na cabeça deles o tempo todo. E o sinal vermelho acende com muita frequência, pelo tédio e pela solidão que observam os filhos passarem. De vez em quando, parece que foram os pais que criaram a pandemia, tamanha é a culpa que carregam. Estão carregando um peso enorme nas costas tanto por acompanharem o tempo presente na vida dos filhos quanto sobre o que imaginam que será do futuro deles. Estão fragilizados.

O aluno, tanto da educação infantil quanto do ensino fundamental 1, precisa de um local designado para aprender - a escola -, precisa de um adulto presente preparado e disposto a ensinar - o professor -, e companhia na árdua tarefa de aprender - os colegas. O ensino remoto não consegue substituir esses requisitos para a maioria das crianças.

O que fazer, então? Primeiramente, ter paciência e tolerância com as dificuldades ou recusa do filho nos estudos. Adianto: pressionar, dar broncas, fazer discurso moral, além de não adiantar nada, pode piorar a situação. Conversar com a escola é uma ótima providência, apesar de que muitas não se comovem nem um pouco com a situação apresentada. Sabe por quê? Porque elas também não têm soluções a oferecer. É, não existe escola perfeita. Entretanto, há escolas que estão sensibilizadas com o contexto vivido por seus alunos e suas famílias no estudo remoto. E, lado a lado com a família, em um diálogo, ganham maiores chances de encontrar boas soluções.

Enquanto isso, estimule a inteligência e o raciocínio de seus filhos. A afetividade entre pais e filhos é importante para isso, sabia? Dê atenção a eles sempre que for possível, conversando, fazendo trabalhos domésticos juntos, ouvindo com interesse real o que falam, mostrando o mundo a eles por meio de livros, filmes, histórias. Desafie seus filhos a conseguirem algo que para eles é difícil, apresente jogos de tabuleiro.

E como fazer a criança pequena entender e respeitar o trabalho remoto dos pais feito de casa? Lembre-se: o concreto ajuda mais do que o abstrato, do que a explicação falada. Repetir a rotina anterior à pandemia de quando os pais saíam para o trabalho pode ajudar: despedir-se deles e dizer que vai ao trabalho.

E o tédio das crianças sem escola, sem colegas para brincar, sem viajar, sem passear? Agora, precisamos devolver a autonomia de brincar às crianças. Em vez de brincar com os filhos, sugerir algumas brincadeiras diferentes é uma possibilidade. Seus filhos estão sofrendo? Sim. Vocês também? Sim. Essa é a nossa realidade, sobre a qual não temos controle, e não somos nada mais do que humanos com dores, dissabores, mas também com possibilidades e potenciais diversos. Que façamos bom proveito.

terça-feira, 4 de maio de 2021

É preciso coragem

 As Escolas não estão fechadas, estão bem abertas cumprindo além de seu papel educacional, seu papel social. Os alunos não deixaram de estudar, somente não estão estudando de forma presencial nas escolas, por razões que não preciso enumerar. Os professores não estão "ganhando" sem trabalhar, estão trabalhando e muito. E mais que trabalhar, estão investindo em formas de ensinar a distância, buscando alternativas para que seus alunos tenham o menor prejuízo. Ah! Mas eles vão ter prejuízo? Claro que sim. A presença na escola, o convívio com os colegas e professores no dia a dia é insubstituível. Mas o que todos nós que estamos, de fato, preocupados com o desenvolvimento de todo este processo está fazendo para aqueles que teimam em não enxergar seu papel neste momento. Será que alguém em sã consciência ainda acredita que estamos vivendo uma "vida normal"? É preciso coragem para mudar, coragem para encarar este momento tenebroso de nossas vidas. Os professores estão investindo em formas de fazer chegar na ponta da linha esta mudança que tantos falam, mas poucos fazem. E quando digo investindo, estou dizendo "gastando" do próprio bolso para conseguir atender a todos. Não é brincadeira. Será que havia alguém preparado para este momento? Nem em nossos piores pesadelos poderíamos imaginar o que estamos vivendo nos dias de hoje. Mas, você para e olha o seu trabalho por alguns momentos, pensa: "Vale a pena". Vale a pena por cada sorriso que podemos ver nas fotos desta postagem, nos vídeos e por cada tarefa concluída. Mais ainda, por cada dúvida tirada. Por cada pai/mãe que envia mensagem ou liga perguntando algo, construindo esta teia que não pode e não deve parar. Este país, este estado e cada município, são feitos de gente. Gente que trabalha, que constrói, que sofre mas, ao mesmo tempo sorri, pois a cada dia que acordamos, nasce junto de cada um de nós uma nova esperança. Que Deus nos ajude.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

ISSO SE APRENDE NA ESCOLA!

Conviver respeitosamente com pessoas com quem não se tem vínculos pessoais não é fácil, e isso se aprende na escola. Sim: a socialização básica, chamada primária, é na família que ocorre. Mas a secundária é só na escola. O que dizer, então, do aprendizado colaborativo? As ciências da educação já apontaram que, quando um aluno aprende e/ou ensina a outros alunos, o conhecimento resultante é bem sólido. Afinal, o conhecimento é um produto social!

Debates de temas importantes, com base no conhecimento, trazem opiniões e interpretações diferentes, o que colabora, e muito, com o pensamento crítico. No ensino domiciliar, não há essa possibilidade. Da mesma maneira, trabalhar em conjunto com colegas, aprendizado que será crucial na vida profissional adulta, também não aparece. Em resumo: temos muitos motivos importantes para defender a escola e a vida escolar!

domingo, 28 de março de 2021

Grandes desafios para as escolas

Temos grandes desafios para as escolas do futuro. Apesar de aparentar ser um paradoxo, a tecnologia devolverá a humanidade ao ser humano. Isso acontecerá, pois toda a tomada de decisão que possuir uma resposta clara e objetiva será facilmente absorvida e substituída pela inteligência artificial. Portanto, as escolas precisam preparar os estudantes para lidar com as funções essencialmente humanas, como a criatividade, resolução de problemas, trabalho em equipe e outras tantas competências e habilidades que vão além do conteúdo e das questões de múltipla escolha.

O ambiente escolar precisa estimular a curiosidade, manter aceso o desejo de aprender e criar conexões além da sala de aula. Imagine se o trabalho em equipe fosse feito com estudantes de diferentes estados brasileiros e não necessariamente com aqueles que estão na mesma sala. Somente uma educação que considere o indivíduo em suas particularidades pode buscar dar conta de um país de dimensão continental. A tecnologia reduziu as barreiras físicas, mas o Brasil enfrenta a quebra do paradigma cultural, uma verdadeira revolução para a construção coletiva da próxima grande transformação que deve acontecer na educação nos próximos anos.

O aumento da expectativa de vida também amplia a necessidade de formação contínua. As pessoas precisam ser ensinadas a estudar de uma forma diferente e autônoma. O grande desafio da educação é efetivamente reinventar as relações humanas. O mundo precisa de mais cuidado, colaboração, olhar para o outro, empatia e isso só é possível com a ajuda de famílias e escolas, que são grandes agentes de transformação da sociedade.

quinta-feira, 4 de março de 2021

O ENSINO PÚBLICO E A VOLTA ÁS AULAS

 O ensino público, em condições normais, demanda mais do que assegurar que, para cada aula, haja um professor preparado, uma infraestrutura adequada e os materiais necessários. Há a merenda escolar que precisa chegar a cada escola, a limpeza dos ambientes, o atendimento das famílias, o contato com a rede de proteção à infância e a gestão de espaços adicionais, como salas de leitura escolares, quadras para educação física, salas de artes e laboratórios de ciências.

Tudo isso se torna mais sério quando há uma crise. Neste contexto, apelar para usos e costumes, no estilo "sempre fizemos assim", já não é suficiente, e a logística necessária envolve uma organização de processos que não dialoga com o calendário escolar.

Dois exemplos evidenciam a importância de competências logísticas entre gestores educacionais. O primeiro foi a importância de se fazerem pequenas obras nas escolas, aproveitando a ausência das crianças, para torná-las mais seguras para o retorno às aulas presenciais. Era importante tornar as salas mais ventiladas, aumentar o número de pias, rever encanamentos ou a conexão com o sistema de esgoto.

Um segundo é a aprendizagem remota e a alimentação em casa. É necessário enviar cadernos autoinstrucionais às residências, adquirir chips para celulares e providenciar caixas com mantimentos para os mais vulneráveis. Cerca de 83% dos alunos de redes públicas são de famílias que recebem até um salário mínimo per capita.

E agora, com a possível volta às aulas começando a acontecer, o desafio logístico torna-se maior, frente a um calendário de vacinações que não deu prioridade a professores. Nesse sentido, será urgente o exercício de liderança por parte de gestores. Afinal, alguém terá que ser a voz das crianças e jovens menos afluentes e defender que educação é atividade essencial. Sem isso, não haverá futuro para o Brasil!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O TEMPO


Há um valor que eu chamaria de a suprema commodity: o tempo. Toda mercadoria que eu adquiro custa algum tempo da minha vida. Tive de trabalhar para comprar o celular. Troquei tempo de vida trabalhando por um bem. Gente rica troca minutos ou segundos. Outros precisam de meses, anos até... 

Eventualmente, posso gastar para comprar algum tempo. Todos que contratam uma faxineira tentam obter tempo para outras atividades. Eu, se for rico, posso ter centenas de assessores e empregados, para que nada do meu precioso tempo seja desperdiçado ao telefone, limpando ou comprando coisas. Porém, com duzentos contratados ou nenhum, meu tempo se esgota. Essa é a dinâmica cruel da maior commodity, o tempo. Posso torná-lo mais e mais estratégico (mesmo não sendo rico). A pessoa que passa no banco para retirar dinheiro e aproveita para ir ao super na volta e vai respondendo a mensagens enquanto espera na fila do caixa está sendo profundamente estratégica com seu tempo, tanto quanto Bill Gates que possui uma tropa de assessores ao seu dispor. A pessoa comum e Bill Gates têm algo em comum: um tempo infungível, impossível de ser trocado ao final. Quando o tempo acaba, ele, de fato, termina. Parece idiotice repetitiva, porém é a chave da vida. Aproveitando ou não, todos terminam de gastar sua cota de tempo. Posso ampliá-lo, estendê-lo com medidas práticas, economizar e até esbanjar: ele termina. Inexorável. 

Isso indica uma pressa e uma tranquilidade. A pressa é para não gastar em vão esta commodity. Evitar perder tempo. Isso não implica trabalhar como um condenado, todavia, trabalhando ou descansando, lendo ou namorando, sempre ter presente: não perder, não desperdiçar, não gastar com atividades inconscientes. A segunda sensação é uma tranquilidade, como eu disse. Seria como uma bola que está caindo: se você gritar, se ajoelhar, se desesperar ou rir, ela continuará sua trajetória rumo ao solo. O tempo é seu e ele está se esgotando. Você pode ganhar e trocar por outras coisas prazerosas, não pode evitar que ele se esgote. 

Como aproveitar a matéria-prima de vida? Darei exemplos. Não desperdiçando tempo com gente que não vale a pena. Evitando contatos sociais que nada representam. Não fazendo fofocas. Parando de enviar mensagens sem sentido ou povoando caixas de mensagens alheias com imagens despropositadas. Exercer curadoria afetiva ativa. Selecionar sempre! Investir em menos gente com maior vínculo. Quando descansar, entregar-se ao relaxamento. Quando estiver com sua família, entrar de todo coração e cérebro na conversa. Quando trabalhar, focar em um ponto e produzir muito. Isso seria, para mim, o “aproveitar” o tempo. 

Como ficar tranquilo? Pare de correr tanto. Sim, você pode chegar dez minutos mais cedo e, somando meses de pressa, ganhará horas. Só que a vida não tem banco de horas. Você não poderá usar tempo sobressalente ao final. O tempo tem um final, para quem correu muito, pouco ou nem tanto. 

Pergunta central para o ano de 2021: se o tempo é o valor mais importante de todos, com o que eu gastarei, trocarei, insistirei ou aproveitarei o meu tempo? Tempo é vida. Com quem e com o que eu gastarei minha vida-tempo? Quais conversas podem valer, de verdade, a pena? Quais festas, almoços jantares, trabalhos, beijos e abraços são tão importantes que eu possa dizer: aqui estou usando meu tempo infungível, porém, é o que faz esta commodity valer a pena? Com o que eu gastarei lembrando-me de que entrego tempo de vida para cada produto que adquiro? É importante? É fundamental? É indispensável? Se eu respondo sim a tais perguntas, é hora de trocar tempo-vida por mercadoria-tempo, aquilo que eu dizia ser a fungibilidade temporal. 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Querido 2021, seja bem-vindo!

 Querido 2021, seja bem-vindo!

Entre, a casa é sua.

Se não for pedir demais, nos devolva, por favor, todos os abraços que seu prezado antecessor nos roubou. Queremos também as gargalhadas dos parentes e amigos, o livre sorriso dos desconhecidos, a brisa no rosto. Gostaríamos ainda de ter de volta a alegria das viagens; a tumultuosa euforia dos estádios e dos grandes shows; todas as tardes em que não fomos beber cerveja com os amigos no boteco da esquina.

Não se esqueça de nos devolver aqueles jantares intermináveis, em que discutíamos o fim do mundo e como iríamos recomeçá-lo. Hoje, que sabemos muito mais sobre o fim do mundo, essas conversas antigas me parecem todas um tanto ou quanto ingênuas. Contudo, mais do que antes, é importante conversar sobre recomeços. Trocar sonhos. Debater utopias.

Eu, que não sou de futebol nem de carnaval, agora sinto ânsias de me perder entre multidões, gritando, sambando, abraçando, me descobrindo nos outros. Quero dançar sem culpa. Quero poder voltar a abraçar meus velhos pais sem medo de os contaminar.

A maior invenção da Humanidade não foi a roda nem o fogo. Não foi o futebol, a feijoada, o samba, o xadrez, a literatura, sequer a internet. A maior invenção da Humanidade, querido 2021, foi o abraço. Olho para trás e vejo a primeira mãe, acolhendo nos braços o filho pequeno. O nosso pai primordial apertando contra o peito forte (e peludo) a mulher amada; dois amigos se consolando numa armadura de afeto. Depois desses primeiros abraços, alguma coisa mudou para sempre. O mundo continuou perigoso, sim, o mundo será sempre perigoso, mas passamos a ter o conforto de um território inviolável. Foi o abraço que fundou a civilização.

Com elevada estima,

*José Eduardo Agualusa Alves da Cunha (jornalista, escritor e editor)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Em férias no meio da pandemia

Este será um fim de ano, com suas costumeiras festividades, bem diferente para cada um de nós. Para as crianças e jovens, então, nem se fala! Em primeiro lugar, a criançada nem pode comemorar a chegada das férias, sinônimo para eles de ficar mais tempo em casa com os pais, de viajar, de fazer programas com a família toda, de brincar com amigos e colegas e de ficar livre das aulas, dos estudos obrigatórios e de todos os compromissos e horários resultantes da vida escolar.

Férias estranhas, essas: quase não frequentaram a escola o ano todo e muitos tiveram aulas e estudos dirigidos remotamente, o que foi, vamos reconhecer, um auê, principalmente para as crianças menores. O que era, até então um brinquedo - os aparelhos tecnológicos - passou a ter de ser encarado como instrumento de estudo.

A pandemia tirou muita coisa das crianças e, nas férias delas, resolveu trabalhar com mais afinco ainda. Precisamos ver o que é passível de reparação para elas nessa história, pelo bem da saúde mental da família toda, certo?

É possível tentar mudar alguma coisa no cotidiano delas? Essa é uma boa pergunta a ser feita pelos pais. Afinal, férias tinham o sabor de mudança de organização dos dias, não é? Então, uma boa pode ser introduzir, a cada dia, uma pequena mudança. Sim, eu sei que os pais estão exaustos e esgotados, mas criança entretida e alegre dá menos trabalho, lembre-se disso.

Outra dica é organizar atividades que eles nunca fizeram antes, ou que fizeram poucas vezes. Criança adora novidade e surpresas. Os pais precisam saber antecipadamente que nem toda surpresa é bem recebida por eles, mas esse fato já é, por si só, uma boa lição para pais e filhos. Para os pais, é uma deixa para que conheçam melhor os filhos. Para estes, que aprendam a se entregar ao que a vida pode oferecer no momento. Uma boa lição para se aprender na infância, já que muitos adultos não conseguem fazer isso.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Atenção: quanto mais nossas crianças e jovens frequentam o mundo virtual, maiores são nossas responsabilidades.



Atenção: quanto mais nossas crianças e jovens frequentam o mundo virtual, maiores são nossas responsabilidades. Por quê? Muitas crianças, a partir de 8 anos, já frequentam algumas redes sociais, e nem sempre com a tutela dos pais. E elas nem poderiam estar lá porque, como sabemos, é a partir dos 13 anos que qualquer rede social aceita a adesão dos internautas. O problema maior é que parte dessas crianças enganou a idade quando da inscrição, com o consentimento dos pais!

Estes, costumam justificar sua atitude dizendo que os filhos nasceram no mundo “50% virtual, 50% real” e que, por isso, eles não conseguem ficar excluídos das redes. E como as crianças sabem muito bem ser insistentes e usar argumentos que seduzem os pais, como por exemplo o conhecido “todos os meus colegas têm página lá”, acabam convencendo-os de que participar de uma rede social é algo tranquilo. Não é.

Vale a pena relembrar alguns aspectos importantes a respeito de crianças e de adolescentes até os 16 anos, mais ou menos. Como seres em formação, eles ainda não têm recursos pessoais desenvolvidos, o que os deixa frágeis e vulneráveis frente às adversidades da vida. É por isso que eles precisam dos adultos: para que cuidem deles porque ainda não sabem se cuidar.

Nessa idade, ainda estão em formação a sua identidade, diversos aspectos da personalidade, o autoconhecimento e o processo da conquista da autonomia, entre outros. Ah! Ainda que tenhamos nos desacostumado com a existência do autocontrole, de tanto testemunharmos adultos descontrolados nos espaços públicos e nos noticiários, as crianças e adolescentes ainda precisam de um tempo para alcançar a maturidade e, consequentemente, o autocontrole. E viver sem isso é prejudicial, pessoal e socialmente.

Considerando isso, vamos pensar nas crianças e adolescentes nas redes. Primeiramente, muitas delas sofrem assédio e nem sabem identificar isso porque não conhecem o fenômeno, não foram orientadas. Elas apenas sofrem com as consequências dessas vivências: a autoimagem fica danificada, emoções fortes como a tristeza, a ansiedade e a angústia, por exemplo, as assaltam, podem desenvolver distúrbios alimentares, do sono, muitas se isolam etc. Em resumo: a saúde dessas crianças e jovens em todos os seus planos – físico, mental e social –, pode ser prejudicada.

É inegável que o uso da internet traz muitos benefícios a eles, mas prejuízos também, justamente pelo fato de ainda não terem desenvolvido os recursos pessoais que possibilitam proteção para se defender de ataques e assédios. Mais uma vez: é por isso que precisam de nós, adultos, tutelando seu acesso à internet. E tutelar é justamente isso: defender e proteger quem está sob sua responsabilidade, certo?

Antes de as escolas fecharem por causa da pandemia, a maioria dos pais se preocupava com o tempo de dedicação dos filhos ao mundo virtual. Nunca existiu nem existirá um tempo cronológico adequado porque as crianças são diferentes, vivem em ritmos diferentes; o importante era não permitir o exagero, ou seja, mais horas no mundo virtual do que em outras atividades.

Mas agora é preciso redobrar a atenção porque não basta limitar o tempo na internet: é preciso cuidar do que eles fazem nas redes. Sua filha ou seu filho sai do local virtual em que estava assim que você se aproxima? Sinal de alerta!

Se não dá para ficar perto deles o tempo todo, lembre-se de que eles podem usar a internet no celular ou tablet com a imagem espelhada no aparelho de televisão. Dessa maneira, você tem mais facilidade para saber o que ele está fazendo, mesmo estando mais distante dele.

Eles precisam saber que você irá tomar os cuidados necessários para protegê-los no uso da internet. Nada de olhar o celular escondido: diga claramente que é sua responsabilidade fazer isso regularmente.

domingo, 4 de outubro de 2020

TODO PROCESSO DE ADAPTAÇÃO ESCOLAR PRECISA DE PLANEJAMENTO!

Todo início de ano letivo, os pais que levam os filhos pela primeira vez à escola, ou aqueles que transferiram seu filho para uma outra escola, se acostumam com uma palavra que será repetida muitas vezes: adaptação. Primeiramente, o aluno precisa se apropriar do ambiente físico. Depois, muitos pensam que os alunos precisam apenas se adaptar aos professores e aos colegas. Não: todos os trabalhadores da escola precisam ser conhecidos por nome. Nada de “tia da limpeza”. Claro que demorará um tempo, mas isso faz parte do processo de humanização dos relacionamentos interpessoais, que colabora para instaurar o respeito entre todos. Chega, então, o tempo de conhecer os princípios da escola, sua organização e seu funcionamento. Com o desenvolvimento de todas essas aprendizagens, os mais novos começam a entender o que significa ser aluno naquela escola.

Sabemos que crianças e adolescentes têm maior facilidade do que adultos para se adaptar a mudanças: para tanto, basta que sejam acolhidos em sua insegurança inicial e acompanhados em seus passos para o necessário encorajamento e tutela, é claro.


Por outro lado, eles também podem oferecer maior resistência sempre que iniciam a mudança. Acordar, deixar de jogar, trocar-se, tomar banho, ir para a escola, por exemplo, são atividades que pedem rituais de transição para facilitar a passagem e vencer as resistências. Depois de tanto tempo em casa, sem ir para a escola, os mais novos vão precisar de um período de adaptação, tanto em casa quanto no colégio. Por isso, famílias e escolas precisam se preparar. E não se engane: mesmo os que estão implorando para a volta às aulas precisarão dessa adaptação. É que o retorno na imaginação deles é uma coisa, e a realidade será bem diferente.

Em casa, volta a valer com maior rigor o cumprimento de horários, e sabemos o quanto isso é difícil para as crianças, por um motivo simples: o tempo, para eles, é o experiencial e não o do relógio, não é verdade? De nada adianta dizer a uma criança, por exemplo: “Você só tem 10 minutos para colocar o uniforme!”. Se o tempo é pequeno, o adulto precisa acompanhar o processo com a criança. Organizar o material escolar, o uniforme ou a vestimenta que usará, acordar em tempo para um café com companhia são exemplos de rituais que ajudam a criança a se despedir de casa, da família, e ficar pronta para sair de lá.

A escola é o lugar certo para eles aprenderem isso. E é bom saber que não se trata apenas de obedecer a regras. Aprenderão o princípio do cuidado com a própria saúde e com a dos outros, o que dá noção de responsabilidade! E todo processo de adaptação escolar precisa de planejamento!

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

ESCOLA E PANDEMIA

 As crianças perderam a pouca mobilidade que tinham: ir à escola, conviver com as pessoas de lá, ir a parques ou clubes, receber colegas e amigos em casa, frequentar a casa deles, fazer passeios com a família. Tantas restrições trouxeram, para muitas delas, mudanças de comportamento. Era de se esperar, não é verdade?

Mães e pais já perceberam os filhos com dificuldades de se concentrar nas aulas remotas, mais irritados e briguentos, tristes, com problemas para dormir e se alimentar. Todas essas reações merecem atenção, o que tem sido difícil para muitos pais pela própria situação de tensão e estresse em que também vivem. Mas um esforço adicional é necessário, as consequências negativas desse período dos mais novos podem repercutir até em sua vida adulta.

Se os filhos não estão bem, a volta às aulas presenciais no espaço escolar pode não funcionar como uma solução para eles. Conhecer o filho é fundamental nesse momento, portanto. Para algumas crianças fará muito bem, para outras nem tanto, principalmente por um motivo: elas esperam a escola como a conheciam, e encontrarão outra realidade. 

Os horários preferidos dos alunos, na escola, são o de entrada, recreio ou saída: é quando encontram os colegas, brincam, se aglomeram. E estará tudo diferente: número de colegas reduzido, horários alternados, muita tutela adulta. Frustradas, algumas podem reagir mal. E, além da compreensão e acolhimento dos pais quanto ao seu sofrimento psíquico, as crianças e os adolescentes podem precisar de atendimento especializado. No caso, uma busca simples na internet lhe trará muitas indicações, inclusive gratuitas. 

Na hora de se tomar a decisão - retornar ou não à escola -, uma conversa em família pode ser de grande valia para ouvir e comentar as expectativas e os receios. 

Mas é bom lembrar: ouvir os filhos é fundamental, mas a decisão é dos adultos responsáveis. Não podemos deixar o peso de uma decisão tão complexa sobre os mais novos. Se a decisão for pelo retorno, cabe então uma visita à escola, se possível, para verificar as instalações, e um “intensivão” sobre as atitudes que os alunos terão de ter na escola. Não, não será fácil nem tranquilo para todos nós, mas é uma decisão que precisará ser tomada pela família, pela escola e pelos governos. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

PRECISAMOS ESTAR ATENTOS À SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES AGORA.

Olhe para seu filho que, no momento, passa a maior parte do tempo em casa, já que a maioria dos Estados não retomou aulas presenciais. Observe como se comporta o corpo dele: a postura que adota em diferentes situações, o equilíbrio ou o desequilíbrio ao se movimentar, a harmonia – ou a falta de – entre os membros, por exemplo, ao caminhar ou correr. O corpo expressa mais do que ocorre com o biológico: comunica, também, ideias, emoções, sentimentos.

Você já deve ter reparado que, ao viver situação de tensão emocional, diversos músculos de seu corpo se tensionam. Aí, chegam as dores e seu corpo sofre de um mal-estar cujas origens não residem nele, não é verdade? Quando você está desanimado, como muita gente está agora, a postura corporal muda, comunicando, sem palavras, seu estado de ânimo. Pois bem: o mesmo ocorre com crianças e adolescentes, que têm na linguagem corporal um importante meio de comunicação, tanto como receptores quanto como emissores.

Uma jovem mãe, que está em casa com os três filhos pequenos, contou que, logo pela manhã, o filho de 5 anos lhe perguntou se ela estava triste. Ela se surpreendeu porque, de fato, estava: passara a noite quase em claro, perturbada com a notícia de que uma amiga estava no hospital com o filho pequeno com sintomas de covid-19. E o seu filho fez a leitura desse sentimento da mãe, provavelmente observando sua expressão facial, a postura de seu corpo, seu olhar e a cadência de sua fala; ele leu a linguagem corporal da mãe. Se ela tivesse negado ao filho a tristeza que sentia naquela manhã – o que não fez –, ele ficaria na incômoda situação de perder um pouco a confiança nela pela contradição percebida.

Nesta época em que os pais estão muito atentos às manifestações do corpo de seus filhos – “será que está febril?”, “apresenta tosse?”, “reclama de dor de cabeça e/ou de cansaço?”, sintomas comuns da covid-19, é importante também procurar fazer a leitura das emoções e sentimentos que o corpo pode expressar. Não é apenas com a saúde física das crianças e dos adolescentes que devemos nos ocupar neste tempo tão estranho para todos nós. A saúde mental deles também está em risco, tanto pela falta de contato com outros adultos e com outras crianças quanto pela percepção que eles têm de que as coisas não estão indo muito bem: há sinais de riscos no ar, que eles captam muito bem nos pais.

Mudanças na linguagem corporal são sinais que podemos observar de que a saúde mental está afetada por ansiedade, tristeza, insegurança, por exemplo. Dou alguns exemplos: agitação motora, corpo com postura abandonada, comportamentos corporais mais agressivos, falta de apetite, perturbações do sono etc. Esses sinais, entretanto, nem sempre exigem abordagem profissional: os pais também podem ajudar. Vamos lembrar que o primeiro contato do bebê com a mãe e o pai é o de pele com pele: é a partir desse contato que se inicia o vínculo entre eles. Dessa forma, massagens suaves e relaxantes, utilizando algum objeto – como bola de tênis, por exemplo, ou um creme neutro -, acompanhadas de palavras igualmente suaves, colaboram bastante para que a ansiedade da criança diminua.

No filme Tully, a personagem tem três filhos, e o do meio não suporta mudanças de rotina e apresenta outros medos que funcionam como gatilhos para as crises que apresenta. A mãe foi orientada a passar no corpo do filho um pincel macio, com o intuito de acalmá-lo, e faz isso sempre que acha que o filho precisa. Em dado momento, o garoto diz à ela que não precisa mais disso porque, mais importante que o pincel, é ela fazer isso com ele. Percebe que a massagem na criança é um mediador da manutenção do vínculo amoroso entre eles?

Em casa, as crianças e os jovens estão bem à vontade, o que nem sempre pode ser bom. Longe do olhar do outro – que não a família –, ele deixa o corpo de qualquer jeito e isso pode prejudicar seu aprendizado, por exemplo, quando tem de estudar ou assiste a aulas remotas. Cuide da postura do corpo de seu filho porque isso influencia seu aproveitamento, sua atenção, sua organização, tanto para realizar atividades quanto a organização interna que demonstra, ou não, equilíbrio. Observe e corrija, se necessário, a maneira de ele se sentar, veja se as costas estão mais para eretas do que curvadas, e, quando ele usar computador, veja se o olhar dele está voltado para o centro da tela, a fim de evitar desarranjos corporais.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

VOLTA AS AULAS?

Há famílias que consideram a retomada este ano uma atitude precipitada e os argumentos para contestar a decisão são realistas. Primeiramente, o fato de não termos vacina contra a covid-19 deixa a população sempre em risco, por maiores que sejam os cuidados tomados. Apesar de sabermos que as crianças se infectam menos e, talvez, transmitam menos o vírus, a ida delas à escola e a estada delas lá envolvem um considerável número de pessoas. Há pais que não querem correr tal risco. 

Há também os que afirmam que poucas escolas possuem condições físicas para atender alunos presencialmente: em geral, as salas de aula são fechadas por paredes, com porta e janelas pequenas – quando não com vitrô basculante – que não possibilitam boa ventilação. Ainda levantam o reduzido número de trabalhadores para a higienização frequente dos espaços e ausência de pias suficientes para todos: alunos, educadores e trabalhadores.

Isso sem falar na dificuldade de a instituição escolar lidar com relativo êxito em determinadas situações. Uma mãe refletiu em um grupo de mensagens instantâneas: “A escola mal dá conta de piolho, que se prolifera rapidamente entre os alunos, como vai dar conta do coronavírus?”.

Há famílias favoráveis ao retorno tão logo seja possível, é claro. Os argumentos também são valiosos: a falta que tem feito aos mais novos o relacionamento com colegas e professores, o processo de socialização pública interrompido, a organização do cotidiano um tanto quanto atrapalhada, a tranquilidade dos pais para ir ao trabalho sabendo que os filhos estão em um local confiável para eles e a aprendizagem que, para crianças, depende bastante do vínculo presencial estabelecido com os professores e com a escola.

Bem, mas há como resolver isso? Temos, aqui, uma boa oportunidade para inaugurar uma nova relação entre a escola e a comunidade que a frequenta. Que tal construir uma parceria escola/família de verdade? Nunca tivemos essa chance antes! Mas, como?

Primeiramente, formando uma comissão gestora desse retorno às aulas com a participação de todos os envolvidos: representantes de pais, de docentes, da direção da escola, dos trabalhadores da instituição escolar, dos alunos. Importante é lembrar que o objetivo de integrantes tão diferentes é o mesmo: o retorno às aulas eficiente no processo de ensino/aprendizagem e com a maior segurança possível.

Sim! Como falta pouco mais de dois meses antes da data prevista, essa comissão conseguiria dar conta de debater e chegar a conclusões importantes para aquela comunidade a respeito de muitos pontos envolvidos nesse retorno, que não é algo simples, não.

Do ponto de vista do processo do ensino e da aprendizagem: certamente, este ano letivo não poderá ser considerado como os outros anos pela comunidade, por isso processos já estabelecidos precisarão ser rediscutidos e reconstruídos. Por exemplo: quais os critérios serão usados para as avaliações? Seria justo avaliar a aprendizagem de alunos igualmente já que muitos não conseguiram se adaptar ao ensino remoto? Como identificar questões emocionais decorrentes da existência da pandemia e do período de isolamento físico interferindo na aprendizagem, e como trabalhar, na escola, com essas situações? Quais metodologias e práticas de ensino inovadoras poderiam contribuir para uma retomada exitosa dos estudos por parte dos alunos e como avaliar o sucesso do uso delas na aprendizagem?

Do ponto de vista sanitário: quais locais da escola os alunos poderão usar, quais deverão evitar e quais não terão acesso de modo nenhum? Como serão administrados os períodos mais críticos, como horário de entrada, intervalo ou recreio e saída? Como garantir o distanciamento físico necessário exigido entre os alunos? Como tratar atitudes rebeldes ao uso da máscara? Como e quando a higiene das mãos deverá ser incentivada e/ou exigida? Que atitudes tomar quando um aluno chega à escola adoentado – não importa que tipo de doença?

Do ponto de vista da cooperação entre a escola e as famílias: os grupos de mães em aplicativos de mensagens podem ganhar objetivos mais nobres do que o atuais? Quais e como? Como administrar e resolver os conflitos que irão surgir? Como chegar a consensos em assuntos importantes para todos? Como debater sem ânimos exaltados? Como estabelecer comunicação não violenta? Há mães e/ou pais que poderiam colaborar com uma hora ou mais na semana para que todos os assuntos decididos sejam praticados?

É um caminho novo para a maioria das escolas e das famílias que só conhecem a chamada parceria de modo nada parceiro. É, também, uma grande chance social que temos para começar um trabalho respeitoso e justo dentro das escolas envolvendo todos os seus segmentos, difícil de ser testemunhado até então. Que tal provocar a escola que seu filho frequenta – ou as famílias de seus alunos – com esse desafio?