domingo, 17 de março de 2019

A educação pela treva

O texto não é meu, mas não pude deixar de compartilhar...
Como se educa um filho num país desses? Como dizer "e eles viveram felizes para sempre, agora dorme tranquilo, papai e mamãe tão na sala", quando na sala papai e mamãe não estão nada tranquilos vendo que a história caminha para longe de um final feliz? Como dizer "não precisa ter medo do escuro", "monstro não existe", quando papai e mamãe são obrigados a sussurrar ou falar outra língua ao conversar na frente das crianças? 
"Um homem que não quis se identificar, tio de dois mortos, um de 16 anos e outro de 18, afirmou que os policiais esfaquearam os suspeitos depois de atirar nas pernas, para impedir que fugissem". "Um dos suspeitos aparece com o intestino completamente para fora do corpo". "O deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL), que mantém bom trânsito com o governador, anunciou nesta terça que propôs homenagem ao Choque do Bope. 'Eles mostraram aos marginais que a polícia do Rio de Janeiro tem que ser respeitada. Foram 13 CPFs cancelados'". 
Rodrigo Amorim é aquele que, durante a campanha, comemorou o "cancelamento" de outro CPF, o da vereadora Marielle Franco, quebrando a placa com seu nome. A placa quebrada, agora emoldurada, decora o seu gabinete, como o chifre de um animal abatido. E eu lendo pro meu filho "O Reizinho Mandão", ensinando que o autoritarismo destrói a autoridade. Desculpa, Ruth Rocha, mas acho que de agora em diante embalarei o sono do meu filho com "O Senhor das Moscas".
Eu queria muito ter que responder perguntas simples do tipo "Como os bebês são feitos?", mas no Brasil o tabu é mais embaixo. "Por que ela dorme na rua?". "Por que ela é pobre?". "Por que ela não tem trabalho?". "Por que ela não foi pra escola?". "Por que a mãe dela também não foi pra escola?". "Por que a avó dela também não foi pra escola?". "Por que as pessoas pobres são sempre marrons?". O que balbucio à guisa de resposta tem a eficácia de um saquinho de Floc Gel sobre a lama da Vale: "Elas não são marrons, elas são negras". 
Pra que me agachar no chão durante a festa e explicar pacientemente ao meu filho que ele tem que emprestar o Batman pro Guilherme "porque se todo mundo emprestar os brinquedos pra todo mundo, todo mundo vai poder brincar com todos os brinquedos"? Se eu fosse sincero e educasse pra realidade brasileira e não pros meus delírios utópicos ultrapassados eu deveria dizer 1) "Não empresta, você é maior do que o Guilherme, empurra o Guilherme, pisa no Guilherme, cospe no Guilherme e mostra quem manda" ou 2) "Empresta, o Guilherme é maior do que você, se você não emprestar o Guilherme vai te empurrar, vai pisar em você, cuspir em você e mostrar quem manda".
A dissonância entre a realidade brasileira e o que meu filho aprende em casa e na escola é da ordem da psicose. Dois mais dois são quatro, nós insistimos em dizer, mas sabemos que se você tiver os contatos certos, dois mais dois são cinco ou quinhentos, assim como também pode ser zero ou menos mil se você tiver nascido no lugar errado, com a cor errada, o gênero errado, a orientação sexual errada.
Não, filho, os bons não vencem no final. Não, os maus não serão punidos. Não, ser legal com os outros não faz com que os outros sejam legais com você. Mas veja: você é branco, é homem, é bem-nascido. Você não pedirá dinheiro pelas ruas, você não terá seu CPF "cancelado" pela polícia. Aqui, neste reino distante, tudo conflui para você chegar a ser um reizinho mandão, um senhor das moscas com um chifre pendurado na parede. Acho que a minha tarefa como pai é te ensinar que este não é um final feliz.

Antonio Prata
Escritor e roteirista, autor de “Nu, de Botas”.

Link: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2019/02/a-educacao-pela-treva.shtml

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Os Benefícios de Conviver Com Pessoas Inteligentes


Imagine que você conviva diariamente com uma pessoa que está a todo o momento reclamando e enxergando apenas o lado negativo das coisas. Por mais positivo que procure ser, a energia dela acabará te afetando de alguma maneira. Do mesmo modo, conviver com indivíduos positivos também influencia, mas, nesse caso, para o bem. E é exatamente por conta dessa influência que se cercar de pessoas inteligentes é extraordinário, porque elas te tornam melhor e, consequentemente, fazem de você mais inteligente.
Essa convivência te leva a explorar novos lugares, novas áreas do conhecimento, novas ideias. É realmente uma ampliação de horizontes, em todos os sentidos. Para identificar essas pessoas inteligentes, atente-se ao comportamento delas. Os sinais mais comuns da inteligência incluem: ouvir, buscar conhecimento, ser engajado e interessado no mundo ao redor. Um indivíduo que tem essas características demonstra ser dotado de uma grande sede de aprendizado e desenvolvimento.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

SOBRE SENTIR SAUDADE

ANTES DE ESCREVER SOBRE SAUDADE, É MELHOR ESCLARECER QUE SAUDADE NÃO É O MESMO QUE SER SAUDOSISTA. 

Saudosismo

O que é Saudosismo: (https://www.significados.com.br/saudosismo/)

Saudosismo é a admiração excessiva por aspectos do passado, desde comportamentos, hábitos, princípios e outros ideais obsoletos e ultrapassados.
O indivíduo que age com saudosismo é considerado um saudosista.
Muitas pessoas consideram o saudosismo um sinônimo de nostalgia. No entanto, há quem considere este último uma condição marcada pela melancolia e tristeza, devido a saudade de um tempo que já passou.
Já o saudosismo não possui um teor tão negativo, mesmo também sendo marcado por momentos melancólicos.

Saudade 

(https://www.dicionarioinformal.com.br/diferenca-entre/saudosismo/saudade/)

Do lat. solidate,soledade, solidão. atr. do arc. soydade, suydade com influência de saúde. sf.(a) 
1. Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhado do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia.
2. Pesar da ausência de alguém que nos é querido. 
3. Desiguinação comum a diversa plantas da família das dipsacáceas, principalmente da espécie Scabiosa marítima, e ás suas flores; escabiosa. 
4. Planta da família das asclepiadáceas (Asclépias umbellata). 
5. Bras. assobiador. 
6. Bras.Cantiga da terra, entoada pelos marujos no alto mar.
7. No Brasil, transforma-se o hiato desta palavra em ditongo: "sau-dade".

NÃO SEI COMO QUEM ESTÁ LENDO VAI INTERPRETAR, MAS EU VEJO COMO DUAS COISAS DISTINTAS. SER SAUDOSISTA (SOFRIMENTO) É TER VONTADE DE VOLTAR AO PASSADO OU AQUELE TEMPO, OU AINDA REENCONTRAR AQUELA PESSOA, REVIVER AQUILO, NÃO SE DESLIGA DO ANTEM. SENTIR SAUDADE (FELICIDADE) É SER FELIZ DUAS VEZES, POIS NÃO ACREDITO QUE ALGUÉM SINTA SAUDADE DE ALGO RUIM, SÓ SENTIMOS SAUDADE DE MOMENTOS BONS, FELIZES, QUE NOS FIZERAM BEM. SENTE SAUDADE QUEM VIVEU BONS MOMENTOS NA VIDA E SORRI SOZINHO, AS VEZES, QUANDO SE RECORDA. MAS NÃO QUER VOLTAR AO PASSADO, CONTINUA VIVENDO O HOJE. QUEM NÃO TEM SAUDADE DE NADA SIMPLESMENTE NÃO VIVEU, APENAS EXISTIU. NÃO POSSUI BOAS LEMBRANÇAS, BONS MOMENTOS, DAQUELES QUE TE FAZEM SUSPIRAR E TOCAR A VIDA PARA FRENTE. A SAUDADE, PORTANTO, É O MELHOR SENTIMENTO QUE EXISTE, SINÔNIMO DE AMOR, DE FELICIDADE, PORTANTO, CONSTRUA NO SEU DIA A DIA MOMENTOS QUE TE FAÇA, SENTIR SAUDADES, POIS SÃO ESTES MOMENTOS QUE FAZEM A VIDA VALER A PENA.

sábado, 12 de janeiro de 2019

5 mentiras que o mantém preso em sua zona de conforto

Um rei foi presenteado com dois jovens falcões. Imediatamente, contratou um mestre em falcões para treiná-los. Depois de vários meses, o instrutor disse ao rei que um dos falcões foi bem educado, mas não sabia o que estava acontecendo com o outro.
Desde que ele tinha chegado ao palácio, ele não havia se mudado de galho. Ainda tinha que levar a comida diariamente a ele.
O rei chamou diversos curandeiros, especialistas em aves, mas nenhum pode fazer o pássaro voar. Desesperado, ele emitiu um decreto proclamando uma recompensa para aqueles que fizessem o falcão voar.
Na manhã seguinte, o rei viu o pássaro voando em seus jardins.
– Traga o autor deste milagre! Ordenou o rei.
Apareceu diante dele um simples camponês. O rei perguntou:
– Como você conseguiu fazer o falcão voar? Você é um mago?
– Não foi muito difícil meu rei – disse sorrindo o homem. – Eu só cortei o galho que ele estava. Naquela ocasião, o pássaro foi deixado sem nenhuma outra alternativa senão levantar voo.
Esta fábula nos ensina que às vezes é necessário permanecer em uma zona de conforto para recarregar, mas se permanecermos lá por um longo tempo, nunca saberemos o quão longe poderíamos chegar.
Portanto, precisamos expandir cada vez mais nossa zona de conforto. Nós só crescemos fora dela.
Quer gostemos ou não, a capacidade de deixar conscientemente nossa zona de conforto e nos atrevermos a descobrir novos horizontes e realizar nossos sonhos é o que nos torna diferentes dos outros; é o que nos permite ter novas experiências que enriquecem e dão sentido a nossas vidas.
Infelizmente, a maioria das pessoas preferem ficar em sua zona de conforto, o espaço em que elas se sentem mais ou menos confortáveis e seguras.
Para entender a zona de conforto, pode imaginar dois círculos concêntricos, um pequeno dentro de um maior.
O pequeno círculo representa todas as coisas a que estamos acostumados. Nossos hábitos e rotinas, que normalmente visitam os locais e pessoas que frequentam, é a nossa zona de conforto.

Zona de Conforto 

À primeira vista, tudo pode parecer grande, mas o fato é que a permanência dentro desse círculo não é uma garantia de felicidade e não garante que no final de sua vida não terá arrependimentos.
Na verdade, ficar na zona de conforto limita você, porque não lhe permite descobrir nada de novo. Assim, você pode morrer um pouco a cada dia. Lembre-se de que a vida começa onde termina sua zona de conforto.
No entanto, há um círculo muito maior, composto de coisas que você não conhece, seus sonhos, novos lugares … É o círculo da aprendizagem, aí que ocorre a expansão.
Para muitas pessoas, dar esse salto assusta demasiadamente, porque elas não sabem o que vão encontrar no outro círculo, de modo que colocam em prática um mecanismo de auto sabotagem, para permanecerem onde estão e não serem forçadas a sair.
As mentiras que contamos a nós mesmos para não sair da zona de conforto:
  1. “Eu não tenho por que fazer”

É verdade, ninguém pode empurrá-lo para fora de sua zona de conforto e você não é obrigado a sair, mas se você ficar dentro da caixinha, não irá crescer.
Lembre-se que não crescemos simplesmente pelo passar dos anos, mas pelos desafios que enfrentamos.
Quando você pensa em um projeto que representa um grande desafio e de repente sua voz interior lhe diz que você não tem porque fazer, em realidade o que você está expressando é uma resistência à mudança, porque uma parte de você deseja ficar dentro dos limites do conhecido.
No entanto, se você pensar que não há nenhuma razão para realizar algo novo, lembre-se que simplesmente o fato de crescer e descobrir, são razões mais que suficientes.
  1. “Não é o momento certo”

Condições perfeitas para empreender algo raramente ocorrem, mas perseguir um sonho significa lutar contra o vento e a maré, criando condições ao longo do caminho.
Quando você diz a si mesmo que não é o momento certo, você está ativando o medo; provavelmente um intenso medo do fracasso inoculado em você desde a infância.
Claro, não se trata de lançar-se a uma aventura sem avaliar os prós e contras, mas se nós realmente quisermos alçar voo devemos ser conscientes que não podemos ficar parados, precisamos ir em pequenos passos.
E quando percebemos, já estamos caminhando melhor.
  1. “Vou começar quando …”

Esta é uma das desculpas mais comuns para ficarmos seguros em nossa zona de conforto. Na prática, é o engano perfeito, porque não estamos desistindo do sonho ou do projeto que temos em mente, mas apenas colocando-o de lado até que determinada situação ocorra.
O problema é que essa desculpa leva diretamente à procrastinação. Por isso é provável que quando a condição da demanda for atendida, criaremos outra, e mais outras.
Desta forma, mantemos a esperança viva, mas ao mesmo tempo, temos que trabalhar duro para tornar esse sonho uma realidade.
  1. “Não é para mim”

Basicamente, por trás dessa frase há a ideia de que nós não somos suficientemente bons ou capazes. Esta é a desculpa perfeita para inseguros e pessoas com baixa autoestima.
Também é uma desculpa usada por pessoas que têm medo do mundo e se fecham para novas experiências. Em qualquer caso, você não pode saber se gosta de algo ou não, até prová-lo.
Na verdade, é provável que em mais de uma ocasião tenha pensado que algo não foi feito para você, mas depois de provar, você amou e ficou empolgado com a nova situação.
Portanto, não se feche para novas experiências nem se limite como uma pessoa. É a pior coisa que poderia fazer.
  1. “Eu não sei como fazer”

As coisas novas podem assustar, então uma das desculpas que inventamos para ficarmos em nossa zona de conforto é dizer-nos que não sabemos como enfrentar o desafio.
Podemos pensar que não temos habilidades ou que nunca podemos desenvolver. No entanto, lembre-se que quando você tem um “quê”, os “como” vêm sozinhos.
É verdade, para realizar determinados projetos a preparação é necessária, mas isso não significa que você não pode fazê-lo, significa apenas que levará mais tempo ou precisa de alguém para ajudá-lo.
Nenhuma habilidade vem do nada, todos têm na sua base muita paixão e esforço para o que realiza, é assim com todos que atingiram esses patamares.
No fechamento, tenha sempre em mente o que Nelson Mandela disse: “Impossível é tudo aquilo que não se tenta”. Ou como disse Michael Jordan: “Você erra 100% das bolas que não arremessa.”

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

NO ANO PASSADO...

Já repararam como é bom dizer "o ano passado"? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem...Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse "tudo" se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraordinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associated Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:

"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".

Ótimo! O meu ímpeto, modesto, mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, como uma explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque não resido em apartamento. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...

Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.

sábado, 29 de dezembro de 2018

COMO ANTIGAMENTE (QUASE)

De uns dias para cá as crianças aqui de casa (re)descobriram a brincadeira de esconde esconde, de bola (esta sempre) e de bicicleta. Não como eu mesmo brincava, correndo pelas ruas, me escondendo na vizinhança, no escuro, em todo lugar, nos pastos que eram nossos campos. É aqui dentro de casa mesmo, correndo pela casa, atrás da casa, pela cozinha, pelos quartos. Sem sair dos olhos e do domínio, nem um palmo para fora do portão, são as minhas ordens (como se mandasse). Não escrevo isso para falar de saudosismo, lembranças, mas para mostrar que as crianças ainda brincam com algo que não seja eletrônico, algo que para eles hoje é a novidade. Eles correm, gritam (e como gritam), saem as gargalhadas, doces e inocentes da infância, emburram, mas se divertem e por instantes,  talvez horas, se afastam do celular, do PC, da TV, que também são diversões que aliadas as "brincadeiras de antigamente" deixam até um gostinho de quero mais. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

FILOSOFIA PARA APRENDER E ENSINAR

Quem de nós não sonhou em ter um professor inspirador, descontraído, sábio, envolvente e que tratasse a gente como gente assim como Merlí, o protagonista da série catalã de mesmo nome que virou um dos maiores sucessos da Netflix? Em um outro filme mais antigo, Sociedade dos Poetas Mortos, encontramos também o personagem John Keating, imortalizado por Robin Williams. Ambos conquistam os alunos com uma pedagogia pouco ortodoxa e muito humana porque não se distanciam dos dilemas, das angústias e da realidade dos alunos. Os dois, cada um à sua maneira, dominam a arte de fazer os jovens pensarem por conta própria e os preparam para lidar com questões universais da nossa existência e da sociedade.
Não há nada mais importante para que os jovens aprendam do que ajudá-los a fazer conexões entre a a vida real e o que é ensinado em sala de aula. Por isso o aprendizado por projetos é grande tendência atual. Dessa forma, os alunos aprendem a partir da resolução de situações reais. No caso dos projetos, a partir de problemas cotidianos, surgem os questionamentos e, com eles, nas tentativas e nos erros, as soluções são criadas e as respostas aparecem. As crianças e jovens têm que aprender a questionar as coisas de maneira desafiadora e criativa, como fazem os filósofos, pensando por vários pontos de vista. E só então formar uma opinião, elaborar um argumento e defender uma ideia.
Muito tem se discutido, a partir da reforma do Ensino Médio, sobre a retirada do currículo da disciplina de Filosofia como matéria obrigatória para todos os alunos. Eu, sinceramente, não acho que isso seja o mais importante. Pois quem deve ter Filosofia na sua base de formação para poder dar uma boa aula é o professor. São eles que deveriam dominar os conceitos dos principais filósofos para instigar os alunos a pensar e até desafiar o raciocínio do próprio professor.
Na ficção, Merlí faz isso de um jeito impecável. Para isso, relaciona temas cotidiano a uma escola filosófica ou a um grande pensador. É uma sacada fantástica. Afinal, a Filosofia é uma ferramenta para se discutir as grandes questões: a vida e a morte, a ética, a moral, a igualdade, a justiça, o amor, o individual e o coletivo, enfim, tudo o que nos faz humanos. Por meio dessas reflexões é que podemos encontrar maneiras de lidar melhor com as pessoas e com nós mesmos e, dessa forma, evoluir
O outro aspecto que faz de Merlí um professor adorável e um personagem memorável é o fato de ele ser de carne e osso. Inúmeras vezes ele se envolve em conflitos, tem dúvidas, vive amores fervorosos, enfim, mostra-se vulnerável como qualquer mortal. Este é outro ponto muito importante para um professor se aproximar do aluno: ser ele mesmo. A auto-estima de um professor faz com que ele possa se mostrar para os alunos de forma transparente e verdadeira. Sem a pretenção de parecer um super herói. Isso aproxima, ajuda a criar vínculo. Uma pessoa assim é muito mais cativante, envolvente e eficiente do que alguém que fica se protegendo o tempo todo e que quer ser colocado no pedestal. Por isso, eu defendo fortemente incluir no currículo de Pedagogia uma boa carga de conteúdos que levem o professor a se conhecer melhor.

sábado, 15 de dezembro de 2018

CINCO TÓPICOS SOBRE MUDANÇA

(...) O primeiro seria a necessidade de abandonarmos o paradigma motivacional na comunicação corporativa (na educação também, mas deixemos isso para outro momento).
A necessidade de motivar as pessoas o tempo todo nasce da própria estrutura produtiva burguesa: acreditar na mudança significaria melhor produtividade, mais otimismo, menos tristeza, mais riqueza.
O capitalismo precisa de pessoas felizes e que creem nos avanços. O problema é que apenas os doentes conseguem ser felizes "o tempo todo".
O problema é que o paradigma motivacional implica debilidade cognitiva, intelectual e afetiva, quando usado em demasia, como é o caso em questão.
Seres humanos podem não saber o tempo todo o que é fake news ou verdade, mas, quando mentimos demais para eles, eles chegam a um momento em que são obrigados ou a entrar em crise (justamente o que o paradigma motivacional teme e reprime com todas as forças) ou a aceitarem que optaram pelo retardo mental (o que em si, nalgum momento posterior, poderá gerar alguma forma de crise).
Os seguintes tópicos devem ser vistos à luz deste primeiro como fundamento.
Um segundo tópico é a imposição da felicidade o tempo todo, o que, por sua vez, implica um aumento de medicamentação. A mentira indiscriminada como paradigma é, seguramente, patogênica. A solução é se dopar em alguma medida.
O contrário aqui não é a "felicidade da verdade", mas o vínculo delicado entre verdade e saúde mental, de alguma forma. Seja nos jovens e no seu aumento de uso de ansiolíticos, seja nos mais velhos e na sua depressão. A destruição da libido parece ser uma escolha política para garantir um mundo mais seguro e correto.
Aliás, um terceiro tópico de mudança que nos desafia é a crescente diminuição da atividade sexual entre os mais jovens. A escolha pelo combate à ansiedade implica uma diminuição da própria libido, uma vez que ansiedade e libido são irmãs. Trocando em miúdos: se você não quiser ser brocha, terá que ser um pouco infeliz.
Um quarto tópico, decorrente dos anteriores, é o caráter redentor do uso de um pouco de verdade na comunicação com as pessoas. Dizem a elas, por exemplo, que os algoritmos as conhecem melhor do que elas mesmas e que, como gosta de falar o historiador israelense Yuval Harari, de forma um pouco dramática, logo seremos hackeados por esses mesmos algoritmos, que nos dirão o que queremos e o que pensamos, por meio das mídias sociais crescentes.
Esse discurso pode ser mais importante do que ficar repetindo milhares de vezes que as mídias sociais têm um caráter democrático e revolucionário e que o avanço da inteligência artificial criará um mundo de renda mínima para as pessoas ou que elas criarão obras como as de Shakespeare a cada manhã.
Sem trabalho não há dignidade, e adultos que se acostumam a viver "de graça" sempre têm problema de caráter. O hackeamento a que se refere Harari nasceria do uso de algoritmos mapeando nossos perfis de consumo e de postagens.
Um quinto tópico é o crescimento inexorável da solidão no mundo. O tédio será um dos afetos essenciais num "mundo Netflix  + iFood" como paradigma cotidiano. As pessoas viverão mais e terão menos família a sua volta. As pessoas estarão ocupadas sendo felizes e não cuidando de idosos. Empresas oferecerão serviços no lugar dos "afetos antigos". E a solidão será um problema de saúde pública, fruto da ampliação da saúde em larga escala.
Luiz Felipe Pondé

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Há algo nas segundas-feiras que desperta nas pessoas a ideia de abstinência

As estatísticas provam, brasileiro não transa nas segundas-feiras. Segunda é o dia da semana com o maior índice de TV ligadas no País. Não há nada na tradição judaico-cristã que proíba o sexo às segundas, como há com outros tipos de comidas. Simplesmente se convencionou que segunda-feira não é dia para isso. Ou, mais especificamente, aquilo. 
*
Os conselheiros matrimoniais conhecem casos em que o tabu foi desrespeitado.
– Ele quis me forçar a fazer sexo com ele, doutor.
– Bem, como ele é seu marido, não creio que “forçar” seja o termo adequado...
– Era segunda-feira, doutor! 
– TARADO!
*
Há algo nas segundas-feiras que desperta nas pessoas a ideia de abstinência. Remorso, talvez. A velha ética do trabalho nos compelindo à autoflagelação pelo pecado de ternos folgado por dois dias. Já são anedotas as histórias de pessoas que começam dietas – ou abandonam o cigarro, param de jogar e fazem outra tentativa de ler Grande Sertão: Veredas – todas as segundas-feiras.
Geralmente a virtude não dura até quarta-feira, mas a compulsão existe. 
Você tem até o fim da noite de domingo para fazer tudo que pretende abandonar na segunda-feira, o que só aumenta seu remorso. Para não falar na ressaca.
*
A lei que transferiria para a segunda-feira todos os feriados nacionais (o projeto existe, juro) seria o primeiro de um plano mais amplo, que é o de abolir a segunda-feira da consciência nacional, depois da semana inglesa, a semana brasileira. Como levaria algum tempo para a gente se acostumar com a nova semana, as segundas-feiras passariam a ser uma espécie de zona cinzenta entre a folga e a rotina, um amortecedor nessa curiosa divisão das nossas vidas entre dias úteis e inúteis. A segunda seria um dia para reflexão, para a nação reencontrar sua cabeça e para você se reconciliar com seus pecados.
*
E tudo começaria de novo, na primeira hora de terça-feira.




Luis Fernando Verissimo