domingo, 23 de janeiro de 2011

Brincando com os números


O educador brasileiro Malba Tahan publicou, em 1962, uma obra em dois volumes intitulada Didática da Matemática, na qual discute várias questões relativas ao ensino desta cátedra. Por exemplo: a relação da matemática com as outras ciências, os fatores que interferem em sua aprendizagem, o método heurístico, o papel do laboratório e dos jogos e recreações no seu ensino. Segundo Malba Tahan, qualquer que seja o método adotado pelo professor, o jogo pode figurar entre as atividades mais úteis à aprendizagem, particularmente porque se trata de uma atividade que desperta “alto coeficiente de interesse”, seja pela forma curiosa como são enunciadas, seja pela maneira arguta como são resolvidas. Logo, é importante que o professor procure praticar em sala jogos que interessem e agradem aos alunos.
O sudoku é um jogo que pode despertar interesse dos adolescentes. É raro um professor de matemática que não tenha se deparado com alguns de seus alunos resolvendo um sudoku ou lhe inquirindo sobre estratégias de resolução. Algo parecido com o que também acontece com o cubo mágico. O sudoku é um jogo que traz em si uma série de elementos próprios da matemática como: estratégia de resolução, desenvolvimento lógico, cálculo mental, levantamento de hipóteses, persistência e validação, entre outros. Além disso, como jogo, permite certas dinâmicas de competição e cooperação. Para os autores dos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), o aspecto relevante nos jogos é o desafio genuíno que eles provocam no aluno, que gera interesse e prazer. Por isso, é importante que os jogos façam parte da cultura escolar, cabendo ao professor analisar e avaliar a potencialidade educativa dos diferentes jogos e o aspecto curricular que se deseja desenvolver. O presente artigo visa discutir uma possibilidade do uso do sudoku em sala de aula de matemática, partindo de sua concepção mais simples que é a dos quadrados mágicos.
O quadrado mágico A palavra diagrama é de origem grega (diágramma, atos) que significa “o que se representa por desenho ou forma escrita”. Podemos imaginar que todo diagrama matemático é composto de três aspectos: o aritmético, o geométrico e o algébrico. A linguagem aritmética, o cálculo operacional, está expresso no diagrama diretamente pelos números e suas operações. A linguagem geométrica se refere à forma e se manifesta na posição que estes números ocupam na figura retangular, ocupan¬do posições entre linhas e colunas que guardam entre si uma determinada lógica. Já a linguagem algébrica pode não ser visível imediatamente, mas ela está presente nos possíveis valores numéricos que cada lacuna do diagrama pode ter, respeitadas as regras do jogo. Ela precisa ser deduzida a partir das duas anteriores: a aritmética dá pistas sobre o processo de cálculo e a geométrica, sobre o ordenamento destes cálculos. Os antigos matemáticos chineses dedicaram-se de maneira especial aos estudos e trabalhos com diagramas. Mas sua motivação inicial associava a matemática ao mito e à magia.
Na mitologia chinesa, a tartaruga é um animal enigmático que guarda os segredos do céu e da terra. A forma de seu casco representa a abóboda celeste, e o seu peitoral, plano e quadrado, a terra. Os 24 recortes do casco simbolizam os vinte e quatro períodos do calendário agrícola e sua longevidade simboliza sua solidez. Foi assim que, conta a mitologia, uma tartaruga surgiu das águas do Huang-He (Rio Amarelo) para o imperador Yu-Huang (2800 a.C.), da dinastia Hsia, quando este, sentado às suas margens, buscava uma solução para as catástrofes oriundas às enchentes daquele rio. Atento, observou que o animal trazia em seu casco um diagrama dividido em nove partes, cada uma delas com determinada quantidade de pontos, de acordo com o sistema de numeração chinês na época. A partir deste diagrama foi traçado um quadrado considerado mágico (Lo Shu), pois nele havia uma relação numérica na qual a soma dos números em cada linha, coluna ou diagonal sempre dava o mesmo resultado: 15, o número de dias que a Lua Nova leva a tornar-se Lua Cheia. Desta forma, um quadrado é mágico quando as somas de cada linha, coluna ou diagonal resulta o mesmo número chamado constante mágica. Quadrados latinos Quase 4,5 mil anos após sua aparição na China, associando magia e ciência, o quadrado mágico se insere como objeto de estudo matemático, servindo de modelo para a resolução de alguns determinados tipos de problemas.O matemático suíço Leonard Euler (1707-1783) foi um dos mais talentosos de todos os tempos e construiu grande fama ao propor e resolver uma série de problemas, entre o quais destacamos o seguinte, pelas próprias palavras de Euler: “Um problema bastante curioso, que pôs à prova durante muito tempo a sagacidade de muita gente, levou-me às investigações seguintes, que parece terem aberto nova via na análise e em particular na doutrina das combinações. Esse problema diz respeito a uma assembleia de trinta e seis oficiais de seis patentes diferentes pertencentes a seis regimentos diferentes; trata-se de os dispor num quadrado de modo que em cada linha, quer horizontal, quer vertical, encontrem-se seis oficiais de patentes e regimentos diferentes. Ora, depois de todos os esforços feitos para resolver o problema, somos obrigados a reconhecer que tal disposição é absolutamente impossível, se bem que não se possa dar uma demonstração rigorosa.”
Como em outros problemas importantes da matemática deixados como conjecturas, este somente foi demonstrado tempos depois, necessitando, para isso, de novos conceitos e métodos modernos da matemática. Isto se deu em 1959, quando os matemáticos Parker, Bose e Shrikhande demostraram que este problema não tem solução quando se consideram 36 oficiais, mas para outras quantidades, como 9, por exemplo, teria solução.
O importante aqui a se considerar é que na busca da interpretação e solução desse problema, Euler criou o que chamou de “quadrado latino”, por ter usado letras do alfabeto latino como símbolos. Trata-se de um quadrado de ordem n, isto é, n linhas e n colunas, preenchidas com n símbolos de tal forma que cada um aparece no máximo uma vez em cada linha ou coluna (fila ortogonal), como mostrado nos exemplos abaixo:
O sudoku
Mergulhado na tradição mágica, artística e matemática, o sudoku, que significa, em japonês, número único, tornou-se uma diversão lógico-numérica popular por ter regras simples e exigir conhecimento das operações básicas. Criado em 1979 pelo americano Howard Garns, foi aperfeiçoada pelo especialista em quebra-cabeça japonês Nobuhiko Kanamoto. Tem como grande mérito a combinação entre a estrutura dos quadrados mágicos com as regras do quadrado latino.
O jogo consta de uma matriz composta de nove quadrados (divididos em 9 partes como os quadrados mágicos) dispostos em três linhas e três colunas. Algumas “células” já contêm números, denominadas pistas. O objetivo do jogo é completar todos os quadrados, utilizando números de 1 a 9, sem que os números se repitam nas filas ortogonais.

Um barril de pólvora chamado Brasil


Entre as obras lançadas na Feira do Livro do Rio de Janeiro em 2008, um quase despretensioso livro sobre a vinda da corte portuguesa ao Brasil 200 anos antes reacenderia o debate sobre a pesquisa histórica no Brasil. Apesar – ou justamente por isso – da fama de não conhecer a própria história, o brasileiro colocou a obra entre as mais vendidas em pouco tempo. O livro era o 1808, e o autor, o jornalista Laurentino Gomes. Os 600 mil exemplares vendidos levaram Gomes a se dedicar exclusivamente à divulgação da obra e pesquisa para o próximo livro, 1822, desta vez sobre a Independência brasileira. Lançado no fim do ano passado, repetiu o sucesso e reacendeu um debate entre acadêmicos. Além de ser escrita por alguém de fora da academia, Laurentino mistura a macroestrutura da época com histórias curiosas dos personagens principais. A história do País estava sendo banalizada? “Eu vulgarizo a História, mas não a banalizo. Tiro da linguagem acadêmica e a conto de um jeito agradável”, diz.
Nesta entrevista ao jornalista Fernando Vives, regada a capuccino em uma padaria do bairro de Perdizes, em São Paulo, Laurentino Gomes fala sobre 1822, o desafio de tornar a história palatável ao público não acadêmico, as dificuldades de se fazer pesquisa no País e rebate os críticos de  sua obra.

Carta na Escola: O senhor era um jornalista que tinha apenas curiosidade pela História. Como surgiu a ideia de falar sobre 1808, e depois de 1822?

Laurentino Gomes: Bem, fui jornalista durante quase 30 anos e o jornalismo e a história são vizinhos. O jornalista testemunha e narra história todos os dias, enquanto o historiador tem um olhar mais distanciado, com mais metodologia e profundidade. Em 1997, surgiu uma oportunidade: eu era editor da revista Veja e havia um projeto especial sobre a história do Brasil – um deles sobre a vinda da corte portuguesa ao Rio de Janeiro. O projeto foi cancelado, mas continuei. Lancei o livro em 2007 pensando na efeméride do ano seguinte, e aí aconteceu o que não imaginava: um livro sobre história do Brasil virou best seller. Então tomei uma decisão arriscada: deixar a Editora Abril, onde trabalhei por 22 anos, para seguir carreira por conta própria, dedicando-me à divulgação do 1808. Fiz bate-papos com leitores, palestras, aulas em escolas, feiras literárias e vi uma demanda: completar essa história. Eu tinha contado o cenário que preparou a Independência do Brasil, faltava contar essa parte. E já estou pensando em fechar uma trilogia, que é 1889, a Proclamação da República. São as três datas ícones da construção do Estado brasileiro do século XIX, a época em que foram lançadas as bases do Brasil que temos hoje.

CE: O que mudou na sua concepção de dom Pedro I após este livro?

LG: Bem, antes eu estava repleto de preconceitos. No 1808, eu tinha a imagem de um dom João abobalhado, incapaz de tomar decisões. Para um jornalista isso é fascinante, mas havia mais além da caricatura. No 1822, isso aconteceu também. Tinha duas imagens de dom Pedro I. Uma é a de Tarcísio Meira no filme Independência ou Morte (de Carlos Coimbra, de 1972), um herói do regime militar, épico. Segundo, o do Marcos Pasquim na série O Quinto dos Infernos (Rede Globo, 2002), mulherengo e inconsequente. Descobri que nem era uma coisa nem outra, apesar de haver os dois elementos. Quando se olha ao passado, tem-se a impressão de que quem fez a História tinha amplo leque de opções. Não é bem assim. Descobri um documento no qual dom Pedro I defendia de forma categórica o fim da escravatura no Brasil. José Bonifácio iria apresentar à Constituinte de 1822-1823 também um projeto para abolir o tráfico negreiro. Então, se o imperador e o seu principal ministro queriam o fim da escravidão, por que não acabou? Porque não tinha como acabar. Então, pesquisar para esse livro me tornou um pouco mais generoso na avaliação dos personagens, sem ser leniente. Não absolvo dom Pedro I, mas por trás do imperador havia um ser com fragilidades muito humanas.
CE: E isso não é uma imagem comum nos livros de História.
LG: No estudo da História do Brasil, vejo dois momentos muito distintos: no fim do século XIX, uma construção dos heróis nacionais, com pouca luz da vida pessoal deles. Depois, no século XX, temos uma escola influenciada pelo marxismo que se dedica à macroestrutura, à história como choque de interesses. As pessoas desaparecem em ambos. A Formação Econômica do Brasil, do Caio Prado Júnior, é uma contribuição inestimável, mas não tem gente de carne e osso ali. Acho que hoje superamos esse momento maniqueísta. Meu olhar é jornalístico, não acadêmico, então queria mostrar as circunstâncias do mundo no momento, mas também dos personagens.

CE: O senhor atribui muita importância aos personagens de José Bonifácio e da imperatriz Leopoldina no livro. Por que eles são tão fundamentais?

LG: Eles exercem papéis simbólicos pelo sobrenome que traziam e o cargo que ocupavam. Dom Pedro era um jovem príncipe de 22 anos que dom João deixa no Brasil para governar um território 93 vezes maior que Portugal. E ele tinha zero de experiência política. Bonifácio era um homem muito experiente, morou 36 anos na Europa, viu a Revolução Francesa nas ruas de Paris. Ao chegar ao Brasil, tem um papel quase paternal com dom Pedro. O Brasil que emerge das margens do Ipiranga tem a assinatura de José Bonifácio, que percebeu que um Brasil grande, isolado, de províncias rivais, só se manteria unido através de uma monarquia constitucional nas mãos do herdeiro português. E ele tem apoio da princesa Leopoldina, mulher de Pedro, educada na corte de Viena, a mais ilustrada da época, e tinha uma noção política muito boa do que acontecia no mundo. Leopoldina converte-se às causas da Independência brasileira. Após 7 de Setembro, dom Pedro fez viagens para pacificar o País e é ela quem formaliza a Independência do Brasil, e depois se empenha pelo reconhecimento do novo país junto às monarquias europeias, dominadas por parentes dela. O Primeiro Reinado desaba definitivamente numa crise política que acaba com a abdicação ao trono em 1831, quando esses dois personagens saem de cena.
CE: No livro, quando o senhor afirma que o Brasil tinha tudo para não dar certo, mas deu, de que exatamente estava falando?
LG: Eu me referia às circunstâncias do Brasil na véspera da Independência. O que é dar certo ou errado na vida de um país? Difícil responder. No caso, seria um Brasil grande, integrado. A maior possibilidade era de que se fragmentasse, como ocorreu na América espanhola. Numa hipótese mais grave, numa guerra étnica entre escravos e brancos. As províncias tinham pouca comunicação entre si, 80% da população era analfabeta, de cada três brasileiros, um era escravo. O País estava falido, pois a corte, ao voltar a Portugal, raspou os cofres públicos. Os perigos eram tão grandes que a elite brasileira preferiu se unir em torno do herdeiro da coroa portuguesa em regime monárquico porque, se não acontecesse isso, poderia haver uma guerra étnica. O Brasil se manteve unido mais por suas fragilidades que por suas virtudes. Então o Brasil que surge em 1822 é um país que vai adiando outras soluções, o que conhecemos bem até hoje.

CE: O 1822 foi pesquisado e lançado em Portugal e no Brasil. Que diferenças dos fatos e personagens históricos o senhor encontrou entre os dois países?

LG: Brasil e Portugal, a rigor, compartilham a mesma história até 7 de abril de 1831, quando dom Pedro abdica do trono e tem-se a nacionalização da Independência brasileira. Até então, era a mesma lei e a mesma constituição. Curiosamente, porém, as visões desse período são completamente diferentes dos dois lados do Atlântico. Brasileiros e portugueses desconhecem o que aconteceu no outro país. Fui lançar meu livro em Portugal, e lá eles não faziam a menor ideia do que ocorreu em 1822. Não sabem que o dom Pedro IV deles era o mesmo dom Pedro que proclamou a Independência do Brasil.
CE: Fazer pesquisa histórica no Brasil é difícil?
LG: Muito. Não faço pesquisa primária, só narrativa secundária, ou seja, leio o que outros historiadores falaram sobre o assunto e confronto as versões, e vou aos locais onde as coisas aconteceram. No Brasil, as bibliotecas estão sucateadas, arquivos não catalogados ou abandonados. A pesquisa histórica no Brasil ainda está por acontecer. Existe outra frente pouca realizada, que é a história regional. A história nacional avançou mais, mas existem pedaços que só podem ser observados na perspectiva da região. Faltam incentivo e determinação em se fazer pesquisa por aqui.
CE: Críticos do seu trabalho dizem que o senhor trata da História de maneira superficial. Como interpreta isso?
LG: Dependendo de como é feita, às vezes considero até um elogio. Um crítico disse que eu vulgarizo a história do Brasil, que é de fato o que faço. Eu torno esse conhecimento acadêmico, quase criptografado, e decodifico usando a experiência que adquiri no jornalismo. Toda vez que um jornalista faz uma reportagem, ele se obriga, por treinamento, a ser didático. Mas veja: existe uma linha muito tênue que não me permite ficar só na superfície nem me aprofundar muito. Tento usar uma linguagem provocativa de capa, para chamar a atenção do leitor leigo, mas, se ficar só nisso, fica banal, mero entretenimento. E tenho de fazer direito, respeitando as fontes, os leitores e a pesquisa.
CE: O senhor crê que existe, em parte, certo “ciúme” de alguns historiadores pelo fato de alguém de fora se aventurar nessa área?
LG: Sim, existe uma reação corporativista, mas de uma parte mais medíocre da academia. Agora, tive resenhas muito boas de historiadores como Lilian Schwarcz, Mary del Priore, João Marcel Carvalho França e Elias Tomé Saliba, entre outros. Eles entenderam o que estou fazendo. Não estou competindo, e sim fazendo um trabalho de divulgação científica, que é bom para eles. Professores de História estão adorando esses livros, o ciúme vem mais da academia mesmo.
CE: O senhor fez uma espécie de making-off nas redes sociais enquanto fazia o livro. O que conseguiu tirar dessa experiência?
LG: Isso é uma lição que o novo jornalismo praticado hoje me deu, que é ter uma cabeça multimídia. Não vamos atingir toda a audiência possível usando só um único formato. Estou no Orkut, Twitter e Facebook, além de dar aulas e palestras. Interajo muito com o público também durante a pesquisa. É quase como um reality show. Exemplo: no 1822, coloquei que José Bonifácio morreu na Ilha de Paquetá. Um tuiteiro especializado em José Bonifácio me informou que ele morreu em Niterói. Vou corrigir na próxima edição. Há uma rede de especialistas nessas comunidades. Se você consegue chegar até eles adequadamente, eles acompanham o seu trabalho e te divulgam.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Assembleia na Carpintaria

Contam que na carpintaria houve uma vez uma estranha assembleia.
Foi uma reunião de ferramentas para acertar suas diferenças.
Um martelo exerceu a presidência, mas os participantes lhe notificaram que teria que renunciar. A causa? Fazia demasiado barulho; e além do mais, passava todo o tempo golpeando.
O martelo aceitou sua culpa, mas pediu que também fosse expulso o parafuso, dizendo que ele dava muitas voltas para conseguir algo.
Diante do ataque, o parafuso concordou, mas por sua vez, pediu a expulsão da lixa.
Dizia que ela era muito áspera no tratamento com os demais, entrando sempre em atritos.
A lixa acatou, com a condição de que se expulsasse o metro que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fora o único perfeito.
Nesse momento entrou o carpinteiro, juntou o material e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, a lixa, o metro e o parafuso.
Finalmente, a rústica madeira se converteu num fino móvel.
Quando a carpintaria ficou novamente só, a assembleia reativou a discussão.
Foi então que o serrote tomou a palavra e disse:
- Senhores, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o carpinteiro trabalha com nossas qualidades, com nossos pontos valiosos. Assim, não pensemos em nossos pontos fracos, e concentremo-nos em nossos pontos fortes.”
A assembleia entendeu que o martelo era forte, o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limar e afinar asperezas, e o metro era preciso e exato.
Sentiram-se então como uma equipe capaz de produzir móveis de qualidade. Sentiram alegria pela oportunidade de trabalhar juntos.
Ocorre o mesmo com os seres humanos. Basta observar e comprovar.
Quando uma pessoa busca defeitos em outra, a situação torna-se tensa negativa; ao contrario, quando se busca com sinceridade os pontos fortes dos outros, florescem as melhores conquistas humanas.
É fácil encontrar defeitos, qualquer um pode fazê-lo.
Mas encontrar qualidades… Isto é para os sábios! 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Professores despreparados para o método adotado no país comprometem desempenho no Pisa

O desempenho brasileiro abaixo da média no relatório do Programa Internacional de Avaliação de Alunos  passa por um ciclo vicioso em que o sistema educacional adotado no país - o construtivismo - não funciona porque os professores estão despreparados para aplicá-lo com eficiência. É base do construtivismo que professores trabalhem como tutores e ensinem os alunos a 'construírem', organizarem e controlarem o seu conhecimento. Sem o preparo adequado, quem deveria ser o condutor do aprendizado pode tirá-lo dos trilhos.

Para Cláudio Gomide, professor da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP), a desvalorização social do papel do professor reflete em profissionais sem formação inicial e continuada. "Sem um regime de trabalho justo e plano de carreira é impossível que uma instituição mantenha um corpo docente de qualidade apto à função de ensinar”, diz. “Optar por um modelo democrático construtivista requer professores preparados e essa é justamente a carência do Brasil”, afirma Neide Noffs, coordenadora do curso de Psicopedagogia da Faculdade de Educação da PUC-SP. A especialista ainda completa: “É preciso que existam propostas pedagógicas adequadas a cada região. O Brasil é muito grande e não é possível abordar a educação de um ponto de vista único em todos os estados”. 
Embora a posição do Brasil no ranking do Pisa seja insatisfatória, os números indicam uma pequena evolução, se comparados aos dados de 2006. Noffs associa essa melhora a algumas mudanças de legislação que ocorreram nos últimos anos. Ela cita, por exemplo, a recente obrigatoriedade na apresentação de planos curriculares na rede pública municipal. “A fiscalização melhorou, mas é preciso que o país acompanhe de perto essas medidas operacionais”, lembra.   
Para Gomide, o tímido aperfeiçoamento está vinculado ao crescimento da inclusão educacional no Brasil.  “Mais crianças começaram a frequentar a escola e isso melhora o desempenho de modo geral, mas não é suficiente para elevar o nível do setor”, pondera. “Ainda sofremos com a falta de acesso à informação e com o total desconhecimento dos valores que movem cada aluno”, ressalta o especialista ao citar as razões pelas quais os brasileiros são tão mal avaliados em exames internacionais. 
Problema invisível – Segundo o relatório do Pisa, com base na opinião de escolas brasileiras, o uso de álcool e drogas ilícitas, aliado a prática do bullying - palavra inglesa usada para designar o ato de intimidar e atormentar –, é o que mais compromete o rendimento dos alunos brasileiros. O problema é velho conhecido de países ricos, como Estados Unidos e Grã-Bretanha, mas parece comprometer mais a educação por aqui do que em nações desenvolvidas. 
De acordo com os especialistas, há motivos de sobra para tais fatores influenciarem o setor no Brasil. “Faltam psicólogos nas escolas que possam ajudar os alunos e a sociedade a enfrentarem esses problemas. Hoje todas essas questões ficam nos ombros dos professores, que se dividem entre vários colégios para conseguir renda”, lembra Gomide. Noffs concorda com o acadêmico e complementa: “As medidas de penalização em outros países são mais severas. Nos EUA, por exemplo, um aluno de oito anos pode ser preso se for flagrado praticando o bullying. Aqui a gente simplesmente finge que isso não acontece.”

FELIZ ANO NOVO!!!!!!!!!!!!!!!!!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Só e bem acompanhado...

Uma das melhores maneiras de encarar a vida é aprender a ficar só, mesmo em meio a uma multidão. Estranho não. Mas eu as vezes me vejo assim, em meio a uma multidão e só. E considero isto uma virtude, pois assim posso refletir sobre minha vida, sobre tudo e procurar fazer sempre melhor... É um aprendizado duro, pois quase sempre queremos estar no centro das atenções, se o nosso cachorro brinca com outra pessoas já nos causa ciúmes, ficamos felizes, mesmo sem revelar, quando ele estranha os outros, assim pensamos que ele só gosta de nós, este é o nosso egoísmo que disfarçamos e saboreamos intimamente. Viver é mais que ter ou ser, viver é, principalmente respeitar... este é o princípio de tudo, sem respeito não a vida ou sociedade. Que neste Natal aprendamos a respeitar o próximo e, principalmente, aprendamos a respeitar a nós mesmos... este já é um passo muito importante.

FELIZ NATAL A TODOS...

domingo, 19 de dezembro de 2010

Plano Nacional da Educação é encaminhado ao Congresso

O projeto de lei do Plano Nacional de Educação (PNE) para o decênio 2011-2020 foi encaminhado ao Congresso Nacional na manhã desta quarta-feira 15. A solenidade ocorreu no Palácio do Planalto com participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do ministro da Educação, Fernando Haddad, além de representantes da Conferência Nacional de Educação (Conae), responsáveis pela elaboração da nova proposta.
Criado em 1996 para estabelecer os principais objetivos da educação nacional por dez anos, a primeira versão do PNE, que vigorou entre 2001 e 2010, foi marcada pelo excesso de metas. Das 295, menos de 30% foi cumprida até o final deste ano. “O importante é fixar menos metas e fiscalizá-las. Quando se vigia a ação, fica mais fácil adequar os meios às finalidades propostas”, defendeu o pedagogo Dermeval Saviani em entrevista à Carta na Escola (leia a matéria de Fernando Vives). Nesse aspecto, o novo PNE parece ser promissor: são 20 metas e dez diretrizes objetivas que contemplam valorização dos professores, acesso aos ciclos de ensino do infantil ao superior, alfabetização, entre outros.
Outro ponto que diferencia os dois planos trata de financiamento. Quando foi aprovado, o primeiro PNE previa que 7% do PIB brasileiro deveria ir para a educação, mas o então presidente Fernando Henrique Cardoso vetou a proposta. Com a aprovação da Emenda Constitucional 59, no final de 2008, o Presidente da República fica obrigado a destinar um porcentual do PIB à área. O texto enviado ao congresso por Haddad e Lula estipula os mesmos 7%.
Uma vez enviado ao Congresso, o projeto de lei será discutido no próxima administração. A previsão é de aprovação no primeiro semestre de 2011.
Metas e desafios
Cerca de 20% das metas afetam a valorização e formação do corpo docente. Primeiro, o PNE estipula que todos os professores do ensino básico deverão ter ensino superior, sendo metade com formação continuada com pós-graduação. Além do mais, os sistemas de ensino terão de elaborar, num prazo de dois anos, planos de carreira para o magistério.
As metas do PNE são as seguintes:
1.Universalizar, até 2016, o atendimento escolar da população de 4 e 5 anos, e ampliar, até 2020, a oferta de educação infantil de forma a atender a 50% da população de até 3 anos.
2.Universalizar o ensino fundamental de nove anos para toda a população de 6 a 14 anos.
3.Universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 a 17 anos e elevar, até 2020, a taxa líquida de matrículas no ensino médio para 85%, nesta faixa-etária.
4.Universalizar, para a população de 4 a 17 anos, o atendimento escolar aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na rede regular.
5.Alfabetizar todas as crianças até, no máximo, os oito anos de idade.
6.Oferecer educação em tempo integral em 50% das escolas públicas de educação básica.
7.Atingir as seguintes médias nacionais para o IDEB até 2021
Anos iniciais do ensino fundamental: 6,0
Anos finais do ensino fundamental: 5,5
Ensino médio: 5,2
8.Elevar a escolaridade média da população de 18 a 24 anos de modo a alcançar mínimo de 12 anos de estudo para a população do campo, da região de menor escolaridade no país e dos 25% mais pobres, bem como igualar a escolaridade média entre negros e não negros, com vistas à redução da desigualdade educacional.
9.Elevar a taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais para 93,5% até 2015 e erradicar, até 2020, o analfabetismo absoluto e reduzir em 50% a taxa de analfabetismo funcional.
10.Oferecer, no mínimo, 25% das matrículas de educação de jovens e adultos na forma integrada à educação profissional nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio.
11.Duplicar as matrículas da educação profissional técnica de nível médio, assegurando a qualidade da oferta,
12.Elevar a taxa bruta de matrícula na educação superior para 50% e a taxa líquida para 33% da população de 18 a 24 anos, assegurando a qualidade da oferta.
13.Elevar a qualidade da educação superior pela ampliação da atuação de mestres e doutores nas instituições de educação superior para 75%, no mínimo, do corpo docente em efetivo exercício, sendo, do total, 35% doutores.
14.Elevar gradualmente o número de matrículas na pós-graduação stricto sensu por meio das agências oficiais de fomento.
15.Garantir, em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, que todos os professores da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam.
16.Formar 50% dos professores da educação básica em nível de pós-graduação lato e stricto sensu, garantir a todos formação continuada em sua área de atuação.
17.Valorizar o magistério público da educação básica a fim de aproximar o rendimento médio do profissional do magistério com mais de onze anos de escolaridade do rendimento médio dos demais profissionais com escolaridade equivalente.
18.Assegurar, no prazo de dois anos, a existência de planos de carreira para os profissionais do magistério em todos os sistemas de ensino.
19.Garantir, mediante lei específica aprovada no âmbito dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, a nomeação comissionada de diretores de escola vinculada a critérios técnicos de mérito e desempenho e à participação da comunidade escolar.
20.Ampliar progressivamente o investimento público em educação até atingir, no mínimo, o patamar de 7% do produto interno bruto do país.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Jovens, privacidade e a internet


Pesquisa realizada por empresa de segurança da informação mostra que as redes sociais dominam as atividades dos adolescentes na rede
Uma pesquisa desenvolvida pela McAfee, empresa especializada em segurança da informação, analisou o comportamento dos jovens na internet. Com o título A vida secreta dos adolescentes: o comportamento dos jovens na Web, o trabalho indica que navegar nas redes sociais é hoje a principal atividade do público de 13 a 17 anos na rede, com 83% de adeptos. Logo atrás, com 82%, aparecem os programas de mensagem instantânea, como MSN Messenger, seguido por e-mails e compartilhamento de fotos.
O Brasil tem 17 milhões de jovens nessa faixa-etária, sendo que 12,5 milhões afirmam terem acessado a internet nos últimos três meses. Destes, 77% são os chamados heavy users, ou seja, se conectam mais do que seis vezes por semana.
Encomendada à TNS, empresa de pesquisa de mercado, o levantamento deu especial atenção aos riscos que o compartilhamento de informações pode representar aos jovens. O primeiro nome é a identificação mais divulgada pelos usuários (54%), seguido de perto pelo e-mail e pela idade; um quarto deixa visível o nome da escola, 9% o número do telefone de casa, 7% o endereço da residência e 4% o número do CPF, o que pode, segundo os realizadores da pesquisa, facilitar ações de ameaça virtual.
Bullying e segurança na rede
Quando perguntados sobre segurança no ambiente virtual, 72% disseram conhecer alguém próximo que tenha sofrido ciberbullying, agressão e intimidação online realizada por outros jovens, principalmente do ambiente escolar. Já 20% tiveram suas senhas roubadas pelo menos uma vez e 50% tiveram seus computadores afetados por vírus.
A relação com os pais também foi abordada. Dos adolescentes, 54% disseram que são questionados pelos responsáveis a respeito dos sites visitados, sendo que metade realizou acordos com os pais sobre o que é permitido acessar na internet. Apesar da grande maioria (88%) afirmar que os adultos acreditam que eles usam a Web corretamente, 39% não revelam o que fazem na internet. Além do mais, 32% tem como costume limpar o histórico do navegador e 39% minimizam o conteúdo acessado toda vez que um adulto se aproxima.
A pesquisa amostral foi realizada, por meio de formulário online, com 400 jovens com idade entre 13 e 17 anos que se conectam pelo menos uma vez por semana.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A solidão do(a) professor(a) de ensino básico - Por: Rudá Ricci

O mais comentado e-mail entre educadores de Minas Gerais é a carta que a professora Áurea Regina Damasceno enviou à Secretária de Educação de Belo Horizonte. É um depoimento dramático e cru sobre o cotidiano das salas de aula, desde sempre desconsiderado pelos gestores da educação de nosso país.

Os gestores caminham, com raras exceções, na contramão, confrontando a realidade e penalizando professores. A última invenção, totalmente sem sentido, é a introdução da premiação (ou certificação) para professores que possuem turmas com bom desempenho escolar. Somente quem desconhece a realidade educacional do país poderia elaborar algo tão sem sentido.

Mas a carta da professora Áurea fala mais alto. A carta inicia com uma justificativa até certo ponto simplória: “Que me desculpem todos vocês, mas a realidade não pode ser desconsiderada! Não dá mais para entrar no jogo do "ensaio sobre a cegueira"!”. Daí, passa a relatar um cenário de horror que, infelizmente, faz coro com a realidade de tantas outras escolas brasileiras e parece reproduzir o roteiro do filme “Entre Muros da Escola”.

Reproduzo algumas passagens:

“Hoje, dia 19 de março de 2009, vou mais um dia para a escola, desanimada e certa de que as aulas que preparei para os alunos do 3º ciclo, 1º turno, não serão dadas. Mas busco entusiasmo não sei onde, entro para a sala de aula (sala 10, 6ª série) e inicio repetindo o que tenho falado com os alunos desde o primeiro dia de aula: coloquem o caderno, a agenda, o lápis, caneta, borracha, régua, tesoura sobre a mesa e guardem a mochila debaixo da carteira ou dependurada no encosto da cadeira (muitos se deitam, durante a aula, na mochila para dormir ou se escondem atrás dela para dar gritos ensurdecedores sem motivo algum ou para atirar bolinhas de papel enfiadas no corpo das canetas esferográficas).”

“Essa atividade demanda mais ou menos uns 20 min., pois metade da sala não ouve ou finge que não ouve, continua a correr pela sala, está virada para trás conversando, está subindo nas bancadas sobre as janelas e de lá pulando de cadeira em cadeira e outros tantos estão a olhar no vazio, sem nada fazer.”

“Pergunto por que estão sem a agenda e sem as folhas, várias respostas: esqueci, meu irmão rasgou, fiz bolinha de papel, fulano (referindo-se a um colega de sala, ou mesmo de outras salas que durante os intervalos invadem como loucos as salas vizinhas, batem, jogam mochilas pelas janelas, rasgam material, andam sobre as carteiras) pegou, rasgou ou fez bolinha de papel, rasguei porque achei que não iria precisar (ah, seria tão fácil se você os colocasse então em duplas para fazerem a atividade, penso eu). Ah! sim, seria, e a responsabilidade e o compromisso ficariam para ser construídos não se sabe quando."

Rudá Ricci - Sociólogo, doutor em Ciências Sociais, integrante do Fórum Brasil de Orçamento e do Observatório Internacional da Democracia Participativa.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O vampiro na sala de aula


O sucesso da saga Crepúsculo revela a fascinação que a literatura de vampirismo exerce sobre os jovens; o tema pode ser explorado para iniciar os alunos no mundo dos livros
E m um dos capítulos de Crepúsculo, um dos maiores fenômenos editoriais dos últimos tempos, o vampiro Edward Cullen leva Bella, donzela protagonista, até uma clareira ensolarada, revelando seu verdadeiro aspecto: sua pele resplandece, repleta de pontos cintilantes. É sua maneira de mostrar que, ao contrário de tudo aquilo que se escreveu a respeito, os vampiros se mantêm na sombra apenas para que as pessoas não saibam que são diferentes: não são aniquilados pela luz do sol.
Segundo Ken Gelder, autor de Reading The Vampire, coletânea que procura analisar os elementos culturais que permeiam as narrativas, cada nova história de vampiros, desde o sucesso de Drácula, revisa e contesta alguns elementos das narrativas que a antecederam, buscando assim afirmar sua própria validade. Os vampiros de Anne Rice, por exemplo, ainda dormem em caixões e perecem quando expostos ao sol (assim como o Conde Drácula, do irlandês Bram Stoker), porém ridicularizam o propalado pavor de crucifixos. Por que, afinal, deveriam temer um mero objeto? 
Pode ser revelador observar as retificações e acréscimos que cada uma dessas crônicas vampirescas faz às suas predecessoras: elas podem nos ajudar a traçar um pequeno retrato das transformações do nosso imaginário ocidental.
Século XVIII: caça aos vampiros 
Embora na mitologia seja possível encontrar divindades e demônios bebedores de sangue, as primeiras referências a vampiros, tais como os conhecemos, remontam ao século XVIII. No também chamado Século das Luzes, chega à Europa Ocidental essa figura folclórica das regiões eslavas, dos Bálcãs e da Romênia, por meio da ampla difusão dos casos jurídicos de Peter Pogojovitz e de Anatole Paole, dois camponeses sérvios cujos cadáveres foram exumados por ordem judicial, sob suspeita de que tivessem se tornado vampiros após a morte.  
A partir daí, uma verdadeira histeria de caça aos vampiros começaria precisamente no século¬ do Iluminismo, cujos porta-vozes rejeitavam qualquer dogmatismo ou superstição. Aquilo que poderia parecer paradoxal mostra-se, na verdade, bastante elucidativo. Em A Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer comentam como o “Esclarecimento”, ao tentar submeter toda e qualquer instância do mundo ao signo da razão, acaba instaurando uma relação tensa com o “Outro”.  Muita luz, como se diz, acaba apenas projetando uma sombra escura: a história do esclarecimento é também a história daquilo que a razão rejeitou. Daí porque o Sé¬culo das Luzes foi também o dos vampiros,  particularmente adequados para representar esse “Outro” temível, que unificava tudo o que era considerado inadmissível pela razão: sexualidade desenfreada, instâncias sobrenaturais, morte.
Datam da metade desse século as primeiras referências aos vampiros na Literatura em três poemas de língua alemã: o poema Der Vampyr, de Heinrich August Ossenfelder, em que um homem rejeitado por uma donzela piedosa ameaça visitá-la durante a noite e sugar seu sangue, o poema narrativo Leonore, de Gottfried August Burger, e A Noiva de Corinto, de Goethe, em que uma jovem morta retorna de sua cova para visitar seu amado. Todas essas narrativas já possuíam, em maior ou menor grau, os elementos de erotismo, sedução e necrofilia que se tornariam típicos do gênero. 
Data também do século XVIII, na Inglaterra, o advento do romance gótico, cujos autores mais célebres seriam Horece Walpole e Ann Radcliffe. Embora seus romances não fizessem referência a vampiros, essas narrativas de teor sentimental uniam ingredientes sombrios e sobrenaturais a elementos melodramáticos. Antecipariam, assim, a literatura sobrenatural do nosso tempo. Nessas narrativas, já se revelava uma mescla de anseio e fascínio pela morte, evocada numa atmosfera de mistério e terror. Também num aspecto mais pragmático as nossas narrativas vampirescas foram antecipadas por esse gênero híbrido: o romance gótico tornou-se, até a primeira década do século XIX, um negócio bastante rentável para livreiros e escritores profissionais, ocupados em suprir a demanda de um número crescente de leitores incansáveis. 
Século XIX e Drácula
A partir desse século, com o advento do romantismo, encontros literários com vampiros se tornarão progressivamente mais recorrentes. Na Inglaterra, Samuel Taylor Coliridge, na virada do século, evoca o tema em seu poema inacabado Christabel, seguido por Robert Southey, em Thalaba. Lord Byron, em Giadour, narraria um encontro de seu herói com um vampiro antes ainda que John Polidori publicasse seu The Vampyre, em 1819, considerada a primeira narrativa em prosa a respeito do tema. Em Paris, em 1920, Lord Ruthwen ou Les Vampires, de Cyprien Berard, é publicado anonimamente. No mesmo ano, Le Vampire, peça de Charles Nodier, estreia no Théâtre de la Porte Saint-Martin. Em 1850, na mesma cidade, Alexandre Dumas estrearia O Vampiro, sua última peça.
Seria possível mencionar ainda muitos outros autores de diversos países do mundo ocidental. É, porém, inegável que a obra que consolidou a popularidade dos vampiros na literatura e forneceu as bases sobre a ficção contemporânea a respeito desse personagem foi Drácula, do autor Bram Stoker, publicada em 1897. A maior parte das características que atribuímos aos vampiros foi estabelecida por esse romance: o hábito de dormir em caixões durante o dia e acordar à noite, a extrema vulnerabilidade à luz do sol, a palidez cadavérica, a força descomunal, o pavor de crucifixos e dentes de alho, a capacidade de se transformar em morcegos, entre outras características propagadas. 
O romance, cujo protagonista é o Conde Drácula, inspirado no conde romeno Vlad Tepes III, conhecido como Vlad Dracul, evidencia de maneira bastante precisa o pavor do europeu esclarecido diante do Outro (que pode ser o eslavo, o judeu, o asiático), o temor do bretão colonizador diante da possibilidade de uma descolonização, de uma colonização às avessas, em que estrangeiros não civilizados invadiriam a nobre Inglaterra, ameaçando as conquistas da razão, revertendo o percurso da nascente Revolução Industrial. 
Século XX e Anne Rice
No século XX, a popularidade dos vampiros tornou-se ainda mais generalizada depois que sua figura começou a ser explorada no cinema. Em 1922, o alemão F. W. Murnau filmou Nosferatu, primeira adaptação cinematográfica de Drácula. Na Literatura, floresceram uma infinidade de épicos vampirescos, dentre os quais os mais célebres são as Crônicas Vampirescas, de Anne Rice, que incluem o romance Entrevista com o Vampiro e uma série de outras narrativas sobre o mesmo universo. 
Nos romances de Anne Rice, como em obras de outros autores da mesma época, nota-se uma evidente guinada na maneira como os vampiros são retratados. As histórias não são mais contadas do ponto de vista de um homem que se depara com um vampiro, mas, sim, dos próprios vampiros, fazendo com que o leitor se identifique com essas criaturas sobrenaturais. O vampiro deixa de ser o Outro para ser uma imagem projetada de mim mesmo, mais sedutora e ambivalente. O que encontramos são vampiros humanizados, repletos de conflitos psicológicos, reflexões existenciais e afeições duradouras. 
A sexualidade e o jogo de sedução continuam a ser elementos fundamentais. No entanto, embora os vampiros ainda suscitem sentimentos dúbios, o embate entre atração e repulsa é menos acirrado. Por trás dessa guinada, existe uma transposição espacial e simbólica: a guinada do Velho para o Novo Mundo. 
Em Entrevista com o Vampiro, a autora remete, por meio dos vampiros europeus que migram para a América, Louis e Lestat, à experiência da colonização. No início do livro, os dois vivem juntos numa propriedade escravocrata, que será incendiada pelos escravos revoltados após desvendar a natureza monstruosa de seus senhores. Uma vez que os vampiros são, em princípio, imortais, o romance pode refazer, à sua maneira, a trajetória dos Estados Unidos, do período da colonização até o momento presente, passando por uma temporada de retorno à Europa. Nos romances que se seguem, Lestat se torna, sintomaticamente, líder de uma banda de rock: de criadoras demoníacas e temíveis, os vampiros pós-modernos passam a ícones da cultura pop. 
Século XXI e Crepúsculo
Se for possível dizer que a figura dos vampiros já se encontra um tanto suavizada nos romances de Anne Rice, o que dizer, então, a respeito de Crepúsculo? Os vampiros protagonistas da série frequentam a escola, se alimentam do sangue de animais para evitar o sangue humano, não dormem em caixões, são bons alunos, cumprem suas promessas, podem se expor ao sol e jogam beisebol.  Trata-se fundamentalmente de uma história romântica. O vampiro adolescente Edward Cullen é uma espécie de Romeu contemporâneo. Há ainda um erotismo sutil na história, mas bastante suavizado. A vida dos vampiros é apenas uma versão um pouco mais glamourosa da vida comum. 
Em Entrevista com o Vampiro, o vampiro Louis ainda fala com nostalgia de seu último amanhecer, deixando claro que há um preço relativamente caro a pagar pela imortalidade. No caso dos vampiros de Stephenie Meyer, o preço a pagar parece ínfimo, diante das promessas de beleza sobrenatural e juventude eterna: “Eu os olhava por que seus rostos, tão diferentes, tão iguais, eram todos devastadoramente, inumanamente lindos”, diz Bella Swam, a respeito dos Cullen. “Eram rostos que você nunca espera encontrar além de, talvez, nas páginas editadas de uma revista de moda.” Os vampiros deixam de ser a imagem concretizada de nossos desejos obscuros e temíveis para se tornarem modelos, personificações de nossos ideais de beleza, juventude e até mesmo bom comportamento. Instaura-se uma separação entre vampiros bons e vampiros maus; o terror encontra-se praticamente ausente, substituído por momentos de ação e aventura, evocando as narrativas americanas de super-heróis. O vampiro Edward Cullen, mais do que um sedutor perigoso e carismático, como ainda o era Lestat, de Anne
 Rice, é de um bom- mocismo exemplar: faz questão de se apresentar oficialmente ao pai da virgem Bella como seu namorado, e ao final do primeiro romance leva a moça ao baile de formatura do colegial. Os vampiros finalmente podem sair ao sol: já não representam nenhum perigo para as nossas convenções sociais. Resta saber o que fazer com nossos temores, fetiches e obsessões.