sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Vida, verdade e tempo


A estrada segue adiante, silenciosa, molhada pela chuva recente, enquanto as montanhas permanecem firmes ao fundo, como quem sabe esperar. A paisagem não corre — somos nós que passamos apressados. O tempo, ali, parece outro: não o do relógio, mas o da natureza, que cresce, amadurece e se renova sem pressa. É curioso como, na correria do dia a dia, quase não percebemos esse tempo maior, mais verdadeiro, que insiste em nos lembrar de que a vida não é apenas chegar, mas caminhar.

A verdade se revela nesses instantes simples: no verde que se espalha, no céu que se abre, na estrada que convida à travessia. A vida pede pausa. Pede olhar atento. Pede presença. Entre compromissos e urgências, esquecemos que o essencial acontece devagar — nas conversas sem agenda, nos abraços que demoram, no estar junto com quem amamos sem medir minutos.

O tempo, quando observado de perto, não nos persegue; ele nos acompanha. Somos nós que, muitas vezes, o deixamos para trás. A paisagem ensina: viver é aprender a desacelerar, a reconhecer a beleza que insiste em existir mesmo quando estamos cansados, a escolher estar inteiro onde os pés pisam.

Vida, verdade e tempo se encontram quando entendemos que viver bem não é correr mais, mas sentir mais. É permitir que o caminho nos transforme, que o silêncio nos ensine e que o amor seja o nosso ritmo. Porque, no fim, o tempo não passa — nós é que passamos por ele. E o que fica é a forma como escolhemos viver.

(Foto tirada no dia 05/02/2026, as 18:10, ao fundo mostra a Serra de Caldas e  Cidade de Rio Quente, chegando via Marzagão)

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Reflexões, medos e desafios

 

A vida tem um jeito curioso de nos atravessar. Às vezes, arrasta-se lenta, chata, repetitiva, como se estivesse testando nossa paciência. Noutras, revela-se perversa, capaz de nos empurrar contra as paredes daquilo que tememos — o fracasso, a perda, o silêncio de quem amamos ou mesmo a solidão de não sabermos se estamos no caminho certo.

Mas, de repente, sem qualquer aviso prévio, ela abre uma janela. E por essa janela entram brisas que cheiram a esperança, luzes inesperadas, e paisagens como essa, onde a manhã se acende lentamente e a névoa abraça as montanhas, como se o próprio céu decidisse descansar mais um pouco sobre a terra. É nesses instantes que o coração se acalma e quase entende a razão de permanecer.

Porque quando Deus nos dá uma missão — não uma tarefa qualquer, mas uma missão — algo muda dentro de nós. É como se Ele soprasse um propósito que nos costura ao mundo. E então, mesmo que a vida seja dura, mesmo que cole marcas, mesmo que o medo nos visite mais vezes do que gostaríamos, nasce em nós uma vontade profunda de ficar. De resistir. De não desistir.

A missão que Deus nos confia tem esse brilho: ela nos tira do desânimo, recolhe nossos pedaços e nos envia de volta ao dia, mais fortes do que antes. E se a vida tem seus desertos, também tem seus jardins. Se tem seus temporais, também tem seus amanheceres. E cada amanhecer carrega a promessa de que, enquanto houver propósito, haverá também motivos para continuar caminhando — ainda que devagar, ainda que com medo, ainda que em silêncio.

Porque viver é assim: um equilíbrio frágil entre o que dói e o que vale a pena. E no meio disso tudo, Deus nos mostra que o tempo nunca é por acaso e que quem tem missão não abandona o caminho. Apenas respira fundo e segue — com fé, com coragem e com essa estranha certeza de que ainda há muito a se viver e muito a transformar.

(Foto tirada no dia 27/01/2026 as 6 horas da manhã, saíde de Água Limpa para Marzagão, descida da Serra da Garapa)

domingo, 11 de janeiro de 2026

Mensagem de Esperança e Paz — Inspirada no Salmo 23

O Salmo 23 é um dos textos mais belos sobre confiança e esperança. Nele, a vida não é descrita como isenta de dificuldades, mas como um caminho onde nada nos falta quando seguimos guiados com fé e serenidade. “O Senhor é meu pastor; nada me faltará” não significa abundância material sem limites, e sim a certeza interior de que teremos o necessário — força, coragem e amor — para atravessar nossos dias.

Quando chegamos às fases difíceis da vida, quando os medos crescem ou quando não sabemos qual direção tomar, o salmista nos lembra de que há sempre descanso para a alma: “Deita-me em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.” A imagem é de paz e cuidado. Até em meio ao caos do mundo, podemos encontrar um lugar interior de calma, onde o coração respira.

O texto também reconhece que existem vales profundos, sombras e ameaças. “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum.” A esperança não vem da ausência do mal, mas da certeza de que não caminhamos sozinhos. É essa companhia invisível e amorosa que nos sustenta quando o chão parece desaparecer.

E para além do medo, o Salmo aponta para aquilo que mais buscamos: proteção, consolo e dignidade. “A tua vara e o teu cajado me consolam.” Mesmo nos dias em que o medo pesa, há sempre um cuidado silencioso que nos abraça e nos mantém de pé.

Por fim, o salmista conclui com uma promessa que vai além do instante presente: “Bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida.” É um lembrete de que o futuro não precisa ser visto com ansiedade, mas com confiança. O que hoje é incerteza, amanhã pode ser resposta. O que hoje é lágrima, amanhã pode ser alegria.

Que esta mensagem inspire paz em nossos dias e nos ajude a caminhar com menos medo e mais esperança. Que possamos encontrar nossos próprios “pastos verdes” e “águas tranquilas”, mesmo em meio às sombras. E que a bondade — nossa e do mundo — nos acompanhe sempre. Porque a vida pode ser leve quando o coração encontra repouso.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O fim da imortalidade

Durante a juventude, vivemos como se o tempo fosse um aliado eterno. Na adolescência e na vida adulta, a ideia de morte parece distante, quase abstrata, como algo que pertence sempre ao outro, nunca a nós. O corpo responde, os dias passam rápidos, os projetos se multiplicam, e a sensação íntima é de permanência. Há pressa, há sonhos, há futuro demais para pensar em finitude.

Mas algo muda quando atravessamos a fronteira dos cinquenta anos. Ao chegar aos cinquenta e tantos, aproximando-nos dos sessenta, a vida começa a falar mais alto — e com outro tom. O espelho já não mente, o corpo dá sinais, e o tempo deixa de ser apenas calendário para se tornar consciência. Não é medo imediato, é lucidez. Uma lucidez silenciosa que se instala aos poucos.

Essa percepção se aprofunda quando, quase sem aviso, pessoas próximas começam a partir. Amigos, colegas, conhecidos da mesma geração. Às vezes de forma repentina, “do nada”, como se a vida tivesse sido interrompida no meio da frase. Cada despedida deixa uma marca, e essas marcas, somadas, constroem uma certeza difícil de ignorar: a de que somos finitos. A morte deixa de ser conceito filosófico e passa a ser presença cotidiana, ainda que discreta.

Essa consciência não precisa ser sombria. Ela pode, ao contrário, nos ensinar a viver com mais verdade. Quando entendemos que a vida pode ser interrompida a qualquer momento, aprendemos a valorizar o instante, a suavizar as pressas inúteis, a cuidar melhor das pessoas e de nós mesmos. A imortalidade que imaginávamos possuir se desfaz, mas, em troca, ganhamos profundidade.

No fim, talvez seja isso que reste: aceitar a brevidade da existência como parte da sua beleza. Como escreveu Fernando Pessoa, com a lucidez de quem compreendeu o tempo e a fragilidade humana: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.” E é justamente quando reconhecemos nossa mortalidade que a alma, paradoxalmente, cresce.